Fascínio

Revendo na câmera digital as fotos tiradas a alguns minutos ouço uma voz doce. Olho para baixo e um ser com pouco mais de um metro pergunta:
- Tia, posso ver?
Abaixo a câmera e mostro a foto para a pequena menina de cabelos finos e castanhos amarrados no alto da cabeça deixando cair inocentes cachos. Por alguns segundos ela observou o visor com atenção. Sua concentração só se perdeu quando outra menina do mesmo tamanho e de cabelos loiros claríssimos veio em sua direção repetindo um aviso da professora para entrar na sala.
Algumas vezes já fui interrompida por olhinhos curiosos pela máquina fotográfica. Porém, o mais surpreendente é que as crianças têm total intimidade com o aparelho. É tão natural olhar para o visor atrás da câmera depois de apertar o botão que, certa vez, presenciei uma menina de quatro anos fotografando milhares de coisas com uma câmera analógica até que um adulto a fez parar porque o filme iria acabar. Ela não havia entendido o porquê e nem a razão de as fotos não aparecerem no visor.
Hoje a menina que me chamou de tia me fez imaginar o que as crianças pensam da fotografia. Talvez a idéia de parar uma imagem no tempo para ser contemplada mais tarde é algo complexo para os pequenos, mas se ver em uma imagem congelada é sem dúvida fascinante para todas elas.
Lembrei da infância e do quanto gostava de tirar fotos. O mais interessante era esperar pela revelação do filme. Abrir o pacote com as fotos era um momento aguardado com ansiedade. Lembrava-me vagamente das imagens e reconstruía-as em pensamento, depois via que estavam diferentes do que imaginei. Por algumas vezes até me frustrei por perder todas elas, isso antes de aprender que não podia abrir a câmera antes de rebobinar o filme.
Posso ter atitudes “ultrapassadas”, mas gosto de ver álbuns antigos, fazer comentários, ver as fotos dos outros, de saber o que faziam ali, quem estava com eles, como estava o clima. Além da foto, o momento é marcado por sentimentos importantes que não se perdem com o tempo e nem com a tecnologia.
Pode ser que o lado romântico da fotografia se torne apenas uma lembrança. Só lamento pelos pequenos que não tiveram a sensação de tirar aquele tipo de foto que depois se tornaria uma surpresa. Até agora estou imaginando o que aquela menina pensou quando ficou olhando para o visor da câmera. Talvez eu nunca mais a veja. Talvez fique com essa curiosidade para sempre ou ainda, talvez ela tenha tido uma emoção forte, daquelas que eu sentia quando esperava a revelação ficar pronta. Vai saber…
Marina Fiamoncini
Que gosta de parar o tempo de vez em quando





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