Cada um tem a sua
Bravas, na Argentina. Ultras, na Europa. O Brasil chama de torcidas, palavra de exportação. O termo é um raro lusofóno, originário do verbo torcer, de deslocar, entortar. A gênese curiosa revela o suposto estado do torcedor após uma partida – deslocado, entortado, torcido. Alguns leste-europeus compartilham conosco a palavra. Deve ser bacana visitar um estádio de Zagrebe e admirar a Hravatska Torcida.
Sugiro que o termo seja alterado, pelo bem da etimologia. Assim como átomo, que significa não-divisível, o termo foi corrompido pelo tempo e pela sucessão de gerações. No Brasil, ninguém mais fica torcido, deslocado e entortado após um jogo.
Cada cultura tem seu próprio modo de torcer. Na Argentina, as barras compõem hinos de seis estrofes, cantados durante todo o jogo. Na Itália, os estádios sem alambrado e bem organizados tornam o clima de um gioco de calcio semelhante ao de um espetáculo teatral. Só no Brasil patenteou-se a torcida que não torce, a torcida que joga contra o time.
Pode reparar, especialmente se o seu time estiver fugindo do rebaixamento. Bastam trinta segundos de troca de passes no meio-de-campo para que comecem as vaias. Não importa se o adversário está bem postado ou se jogadores são pernas-de-pau. A torcida brasileira se importa mais com o jogo do que com o time.
E dá-lhe hipocrisia. Um jogador antes vaiado pela massa cai nas graças da galera se fizer um gol. O craque que ganhou campeonatos pelo clube mas joga mal duas partidas seguidas tem sua substituição exigida pela torcida. Nas Copas do Mundo, a torcida brasileira é notadamente uma das piores – só apóia a equipe no início do jogo e após algum gol, toma jogadores como cristo e exige substituições mega-ofensivas e suicidas.
Alguns analistas dizem, através de experiência política, que os brasileiros não têm memória e nem sabem votar. Olhando através do viés futebolístico, compactuo com a primeira opinião e estendo a segunda para ‘ não sabem torcer‘.
Francisco Antônio Machado da Silva






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