O Sal da Terra

Posted in Comportamento, Literatura by Colaborador on 06/01/2009

Agonizava… e nem êle mesmo sabia disso. Sua vida passava diante dos olhos qual velha película desbotada, com estranhos “flashes” e brilhos pelo meio, as imagens incomodamente velozes, como se tivessem vergonha do que mostravam. Já não via o mundo; já nem havia mundo para êle, nos estertores da morte, o corpo inchado e disforme pela ingestão prolongada de bebidas, todas elas.

Nada mais importava agora… aliás, há muito tempo nada tinha importância, quase tudo acabara quando seu avô se fôra. “Vô” Augusto César era espelho e modelo, patriarca de um clã com ra´zes na vibrante Espanha e que migrarapara o Brasil quando as balas e granadas da sangrenta II Grande Guerra escolheram sua enorme família como alvo.

Muitos Castañeda ficaram, outros mais dispersaram-se globo a fora, pela Europa, as três Amércias, várias regiões do Brasil. Seu avô, jovem ainda, embrenhara-se no El Dorado que seus antepassados tentaram, em vão, encontrar: a riquíssima região de ouro verde (madeiras de todo tipo), de minérios e minerais incontáveis, ervas medicinais, frutas típicas e com uma terra que, mesmo não se plantando, tudo dava. Adotou a região como sua, despiu-se das próprias particularidades e assimilou, em pouco tempo, os falares, gostos, costumes e até a diversão da gente da terra, agindo e vivendo como qualquer deles. O território era extremamente inóspito para individualidades e quem quisesse sobreviver, árvore ou animal, deveria agir como os demais em seu meio, mesmo pensando diversamente.

O “galego” investiu suas parcas economias na rvenda da castanha-do-pará, quando o fruto das colossais árvores valia mais que sua nobre madeira, nos velhos tempos do Grão Pará. Comprava em litro dos pequenos produtores — tendo mera lata de óleo de cozinha como medida — e revendia adiante, em grandes sacas e com belo lucro, para exportadores de Belém, indo de barco ou carro conforme a estação.

Em pouco tempo o espanhol arrumou pé-de-meia, esposa, dois filhos, modesta vivenda com hortas e tanque de peixes e adquiriu vários hectares de castanheiras nativas. Transformou-se no patrão “Guto Castanheira”, com um bocado de caboclos a seu serviço e com os filhos atuando na sede da “empresa”, ampla casa adquirida na  recém-fundada Castanhal, cuja estrada de ferro barateava em muito o transporte da produção.

Ali nascera Luís Augusto Castanheira Rabelo, pois o avô adotara por sobrenome de família o fruto que lhe trouxera fortuna. O menino, filho único, primeiro e adorado neto de “Guto Castanheira” cresceu cercado de mimos, frequentou um dos melhores colégios de Belém, no qual os frades do Carmo lhe deram esmerada educação. Era o orgulho do avô, embora  pai e tio torcessem o nariz para aquele refinamento todo.

“Primus inter pares”, dizia ao avô-coruja o vigário-reitor, melhor aluno da classe e do colégio, “Lula” tornou-se imprestável para as lides do campo, espécie de “patinho bonito” olhado com desconfiança pelo tio e primos, com algum desgosto pelo ativo pai e com certo receio pela abnegada mãe, uma prendada ribeirinha mais afeita aos modos e crendices do populacho do que às certezas e conhecimentos esquisitos de seu pimpolho.

No recesso das aulas, nos feriados mais longos e nas férias de julho e dezembro corria para o interior, para os braços do avô que o amava  e entendia, ignorando tudo o mais. Passava com êle divertidos “weekends” na capital, com “soirées” aos sábados no magnífico Theatro da Paz, conforme escolha do avô ou em alegres “matinês” no Cine Palácio, nos ensolarados domingos.

Quanta vez sua mãe se perguntou, proseando com os próprios botões, para que servia tanto estudo se a fazenda lá embaixo precisava mesmo era de um braço forte, pulso firme, cabeça boa e ela de alguns robustos netos. Quanta vez “Lula” se interrogou, à beira da fogueira em longas reuniões noite a dentro ou vendo dançarem a quadrilha — êle, todo empertigado em sua camisa engomada, de mangas compridas e abotoadura de ouro — de que lhe servia tanto estudo frente àquele povo tão simples em sua humildade, diante daquela gente tão humilde em sua simplicidade. Mas, vencera todos os obstáculos para agradar o vovô, fôra tão longe porque isso era, acima de tudo, o desejo maior do pai de seu pai.

As imagens jorravam sobre si como torrente ensandecida; professores, matérias, brincadeiras, os amigos, os padres todos, o refeitório, a capela, a piscina… tudo lhe passava sobre os entumescidos e vítreos olhos, como num álbum de figurinhas folheado por um vendaval. O Pe. Domingos narrando histórias, Pe. Vitor fotografando, Pe. Mozart por incrivel coincidência sempre ao piano, Pe. Mário no futebol, amigos e mais amigos, latim, francês e algo de inglês, “O Jornalzinho” querido, a revista “Entre Amigos”, etc e etc.

Demarcando cada momento das vidas dos dois Augusto a castanheira na entrada de Belém, na antiga Estrada dos Boiadeiros, depois BR-316 e, mais tarde, Avenida Almte Barroiso. A imensa castanheira florida numa estação ou soltando como lágrimas suas folhas uma a uma, até assemelhar-se àquelas árvores de filmes baratos de terror. Era a centenária castanheira cúmplice dos anseios secretos de ambos, que lhe votavam muda admiração, como se ela fosse um longínquo antepassado. Não entravam ou saíam de Belém sem lhe fazer silenciosa saudação, render-lhe respeitosa homenagem, que só cabe a monarcas ou santos. Esse pacto de consideração avô e neto estenderam aos demais elementos da Natureza (pássaros, floresta e animais), procedimento incomum aos demais familiares e sentimento que os unia ainda mais.

Todavia, a monumental castanheira cedeu ao progresso… vergou-se aos machados e serras e foi predendo um a um seus membros, sem nenhuma queixa ou protesto, lacrimando seiva por todos os poros, o tronco imponente e rijo resistindo a todas as ofensas e crimes, impávido colosso inextinguível. Atrapalhava o trânsito, dizem ainda hoje os burocratas, mas o punho bruto, estéril, explodindo do solo bradava aos céus pedindo justiça, que por clemência ela bradou em vão.

Quando o velho Augusto César Castañeda viu o tamanho do crime cometido baixou hospital; acorreram todos à capital para vê-lo e o jovem Luís Augusto foi retirado às pressas da sala de aula. Seu avô nunca mais foi o mesmo, sentiu um mau presságio na morte da admirada amiga e nem a esposa, companheira de todas as horas, conseguia animá-lo.

A melancolia criou raízes em sua alma, sombreou-lhe de tal forma o espírito que só voltou à antiga fazenda a fim de contratar o famoso violeiro “Bié” para fazer uma canção em homenagem ao gigante.

Abiezer Eleutério da Silva, pernambucano de Olinda, era mais um dos milhares de migrantes que fizeram do Pará sua segunda pátria, constituindo aqui família, filhos, netos e bisnetos, desde meados do século anterior.Também êle sentira o desastre que fôra aquela medida administrativa, destruindo um dos marcos mais importantes do passado. Vai daí que o violão soou, para encanto dos Augustos, enfeitando os lindos versos de “CASTANHEIRA”:

I

Quem entra em Belém do Pará
vindo do interior
vai passar pela castanheira
que o tempo desfolhou.

II

No marco zero da estrada
ela estava muito bem.
Assistiu toda a história
da cidade de Belém.
Viu a luta dos cabanos,
assistiu a adesão.
Falou com Pedro Teixeira,
o grande desbravador
e com “Chico” Castelo Branco
que foi nosso fundador.

I I I  (refrão)

Castanheira, castanheira,
dê licença de eu passar:
– “Me diga se eu sou benvindo,
de volta a Belém do Pará”!

I V

Hoje, somente o tronco,
sem folhas nem algodão,
ainda conta pra gente
o que ela testemunhou:
a história de um povo
que nunca lhe abandonou !

Avô e neto se derramaram em la´grimas, a fazendola em peso sentiu no pranto um quê de despedida e o velho “Guto Castanheira” passou pela derradeira vez frente ao outrora orgulhoso tronco. Morreu desgostos da vida pouco depois, enquanto o neto definhava de saudades e tristeza.

Em poucos meses “Lula” abandona tudo: casa, família, estudos, bens, conforto e futuro. Passou a perambular pelas esquinas, sem destino nem paradeiro, mais bebendo que fumando e tendo por amigas inseparáveis a febre, a gripe, por vezes a fome e, adiante, a tuberculose. Perdeu a noção de tempo e de espaço, tornou-se irreconhecível e, nos instantes finais de mais uma década ali estava, trambolho quase humano recostado às raízes semimortas de sua amada castanheira, cruz e lápide de seu bizarro calvário.

Agonizava… e nem ele mesmo o sabia. Já não via o mundo… e era esse o seu maior prazer. Estava longe de tudo, próximo do avô querido, os últimos “flashes” da amarga vida arrastando-se como soldados vencidos, ensanguentados, feridos de morte. Fatal hemorragia interna dera seu golpe final, com sutil hemoptise escrevendo em carmim a derradeira oração do livro da Vida. Gélida noite abocanhou os restos do agitado dia e o fim da feérica sexta-feira prenunciava novo velho ano. “Lula” não ouviu os fogos metralhando a natureza, sequer apreciou o deus-sol saudando mais um per[iodo para os homens de boa vontade na cidade adormecida e parcilmente abandonada.

Sumiu o sábado na poeira dos séculos e, ao raiar do dia santo, o que parecera aos transeuntes mero bêbado largado ao pé do maltratado tronco transformara-se em repulsivo cadáver inchado e sanguinolento.

Descansando finalmente em paz, a seiva que alimentara aquele Augusto nutria agora o que sobrara da augusta árvore, sal da terra revigorando raízes e adubando o chão à sua volta.

Impávido colosso, o tronco impressionante resistiria às intempéries por outra década mais, até que um rec´´em-lançado shopping center de luxo desse fim àquele monumento à sandice dos homens, extraindo tronco & raízes e selando com pedras e cimento todo um capítulo sentimental de milhares de pessoas.

Restou apenas a canção do velho cantador “Bié” e a triste memória de quantos a eternizaram como símbolo maior e primeiro da cidade de Belém. Quem entra em Belém do Pará não vai passar pela castanheira… e nem por tantas outras coisas mais.

Cincinato “Nato” Azevedo

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