Amiga do peito

Posted in Literatura, Relato by Colaborador on 07/06/2007

Amigas

Quarta-feira passada resolvi dar uma olhada nas vitrines do Itajaí Shopping antes de ir pra facul. Tipo, eu só queria dar uma relaxada, olhar umas blusinhas, uns pares de sapato, tomar um sorvete e seguir meu caminho. Coisa que toda mulher gosta de fazer quando está na TPM ou quando briga com o namorado. Como tive esses dois problemas no mesmo dia, com mais o agravante de ser uma quarta-feira (eu odeio este dia, pois não é uma segunda-feira, dia de começar projetos, nem uma sexta-feira, dia de chutar o pau da barraca e correr pro abraço) tinha euzinha o direito de andar pelos corredores arrastando o chinelo, cantarolando “ahhhhhhhhhhh, eu quero vc como eu queroe bisbilhotar todas as lojas que tivesse vontade.

Tem mais! Clique aqui »

Como sou louca por bijou, entrei numa loja especializada em coisinhas brilhantes de se colocar na cabeça, na orelha e onde você bem entender, e sentenciei ali meu tão agradável e inútil passeio. Aix mãe, pior do que vendedora “sombra” (o tipo que segue seus passos tão de perto que fica possível até ouvir a respiração dela no cangote) é a vendedora “amiga”. Em 15 minutos de convivência, a moça eufórica vê na gente não um mero cliente, mas uma colega de infância que há muito não encontrava. Sabe o tipo? Pois eu topei com uma dessas nessa loja. E, pra ti acompanhar o drama, vou repetir o diálogo como aconteceu.

– Olá, posso ajudar?

– Não, obrigada. Estou só dando uma olhadinha.

– Então fica à vontade!

O primeiro contato é sempre assim né, automático e inodoro. Tanto as vendedoras “amigas” quanto as “normais” começam com essa frase.

– Nossa, AMEI o seu cabelo, é cachiadinho né!!

– Aham! Obrigada…

– É natural, ou permanente?

– É natural

– Puxa, os cachos são tão perfeitinhos! O meu é um terror, nem crespo, nem liso, não sei mais o que faço nele. Tava até comentando isso pra Natasha hoje mesmo, né, Natasha?

Uma voz surge atrás de um monte de lenço de onça. Estampada na cara dela, a indisfarçável mistura de tédio com indiferença e preguiça. A pobre devia acompanhar todas as investidas da outra, que provavelmente abordava com a mesma garra todas as coitadas que entravam na loja. A tal Natasha apenas dá um grunhindo.

– É…

– Olha esse cabelo Natasha! Tô pensando em encrespar, que tu acha?

– É…

Sem graça, eu trato logo de mudar o assunto.

– Qual é o preço deste brinco?

– Como é que você se chama?

– Fátima

– Fátima, o meu é Roberta, mas todo mundo chama de Beta? Deixa eu consultar o preço pra ti.

Pronto. Quando a pergunta sobre preços recebeu como resposta outra pergunta sobre nomes, o destino estava selado. Era tarde para fugir, pois a vendedora “amiga” já estava me considerando como a mais nova participante do grupo as-camaradas-do-peito. Enfim, depois de checar ela volta com o preço e, vendo minha cara de “caro, hein?”, saca a pérola:

– Esta peça tá saindo muito!

– Ah, que bom.

O jeito é não mostrar emoções. Mas minha vontade é responder: “E você acha que eu vou querer gastar tudo isso em um brinco que todo mundo tem?”. É sempre melhor não ferir os sentimentos de uma vendedora “amiga” né. Saio dos brincos e vou para as presilhas. Estou olhando um tic-tac quando ela se aproxima com um bolo de coloridos grampos na mão.

– Você gosta assim?

– Hmmm, já tenho bastante desses.

– E assim?

– Hmm, assim não gosto.

– E essa? Fica linda em cabelo crespo (falar cabelo crespo é o mesmo que me dar uma punhalada no coração. Gosto de dizer que meu cabelo é cacheado, mesmo sendo ele crespo)!

-Ó, deixa eu colocar pra você!

Pronto, tudo o que eu precisava contato físico! Para não atiçar a fera, escolho um modelo básico (ou seja, nada daquelas mostradas por ela com a cara da Hello Kitty). Mudo de direção e vou dar uma olhada nos colares. Gosto de um colar com miçangas de madeira, mas uma peça está solta. Ela pula do meu lado.

– Vem cá, eu arrumo pra você.

– Ah, brigada.

– Ficou lindo! Combinou com seu cabelo. (que sina hein)

– É, mas eu queria que fosse mais curto.

– Ah, a gente encurta pra você!

– Ok.

Ela então entrega o item para a Natasha. Enquanto isso engata em mais um papo.

– Adorei seu visual! Diferente. (Estava de calça Jeans corsário, blusa branca e rasteirinha)

– Obrigada.

– Tu vai pra balada?

Mãe do Céu, nessa hora eu tremi as pernas. O que essa guria queria? Será que era uma cantada? E o que eu ia responder? Que saio bastante e convido-a para juntar-se ao meu grupo de amigas- irmãs? Sem chance. Nem o grupinho da Yana, nem o grupinho da Fran e nem o grupinho da Sibelle aceitariam uma caça amizade no grupo. É assim mesmo nega, eu divido meus grupos de amigos. Não que um seja mais importante que o outro, é que um grupo é o da facul, que na verdade vem desde os tempos do Cau. Tem o grupo do pessoal que eu trabalho e o grupo das meninas da minha rua. Olha só o que eu respondi Beta:

– Às vezes… Mas só saio com o meu namorado. Só nós dois, ele é tímido (segurei para não rir)

– Então vou te mostrar um broche que as meninas tão usando muito na balada, preso no bolso da calça jeans!

Ela retira da vitrine uma libélula prateada gigantesca, horrorosa.

– Posso colocar

– Aham… (olho para os lados, não tem por onde fugir) Pode…

E em segundos, eu estava com um inseto metálico grudado na bunda.

– Combinou tanto!

– Mas como as pessoas sentam com isso?

– É pra usar na balada, as meninas não sentam, né? Ficam curtindo, dançando…

– Mas quando eu saio, eu sento.

– Então você nunca foi numa rave, lá ninguém senta, o pessoal fica numa vibe tão boa que até esquece o cansaço.

Aix gostaria de perguntar se as meninas baladeiras vão e voltam das raves a pé, mas sou salva pela santa Natasha já havia encurtado o colar. Pago e, depois de mais alguns obstáculos, consigo sair da loja – com um par de presilhas, um colar e uma amizade sincera que irá durar até o fim dos tempos. Ou melhor, até o próximo cliente chegar.

 

Fátima Barbi
Que não é a boneca mas tem lá o seu charme

 

Anúncios

6 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Marina said, on 07/06/2007 at 3:51 am

    aaaaaaah foi publicado!
    adoro a Fátima e seu lado humorístico!
    beijooooooos

  2. Pega no meu Blog said, on 07/06/2007 at 4:48 am

    fatinha não poderia faltar por aqui! o humor dessa menina é sensacional!
    muito engraçado o texto barbi!
    bjs

    sal

  3. Raquel said, on 07/06/2007 at 12:24 pm

    Muito engraçado!!!! Sinceramente?! Abomino com todas as minhas forças os vendedores… A minha vingança é nunca comprar nada! Qualquer dia desses faço descer todo o estoque e a vitrine e saio com as mãos livres, só para dar trabalho a esse povo que não entende os limites…

    Fátima não se deixe levar pelo papo de vendedor. Assim não gasta com coisas que não irá usar…

    Adorei! Beijos…

  4. Iarinha said, on 08/06/2007 at 1:16 am

    Pra mim isso é vendedora falsa mesmo…rs
    Já trabalhei em uma loja de cosméticos (é, essa mesmo), que eu já estava de SACO CHEIO com as falsidades desse tipo. TODO mundo que chegava ela elogiava algo, era um porre. Eu pensava: pqp qe falsidade, se fosse eu não voltava mais nunca..rs
    Abraço!

  5. Amanda said, on 08/06/2007 at 7:02 pm

    Nooossaaaa!!!!
    adoreiiii o texto!!!
    muito bom mesmo…
    olha, essas vendedoras vou te contar né?! ninguém merece!
    um coisa é ser querida e tratar bem, outra coisa é forçar a barra!
    beijosss

  6. Anamélia** said, on 28/06/2007 at 11:34 pm

    huahUAHUhuahuHUAHUhauHUA
    É ASSIM MESMO QUE AS VENDEDORAS AGEM, ajiAHhauhuHAU
    esse post foi tudo!
    adorei!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: