Promoção de Dia dos Namorados

Posted in Literatura by . on 12/06/2007

“Loiros ou morenos, altos ou baixos, aqui você encontra todo tipo de namorado para não passar o dia 12 de junho sozinha”, dizia o vendedor Claudinei com um auto-falante em frente à loja Armazém do Amor, no centro da cidade. “E tem mais”, insistia: “na compra do nosso modelo promocional ganhe um jantar à luz de velas!”.

Claudinei é um ótimo profissional, dessas “pratas da casa” que faz de tudo um pouco. Não é a toa que já foi contemplado com o título de “vendedor do mês” por vinte e duas vezes em sete anos de trabalho. Alguns dizem que por ser gay ele tem essas vantagens: as mulheres preferem comprar com ele.

– Eu sempre quis um jantar à luz de velas, suspirou Anita enquanto passava em frente à loja, num sábado à tarde, alguns dias antes da comemoração dos namorados.

Anita é romântica. Seus cabelos ruivos e lisos na altura dos ombros escondem uma garota sonhadora, dessas que desejam encontrar um grande amor. Seu último namorado, Pedro, há cerca de oito meses viajou e nunca mais deu notícias. Mas ela sabe que isso acontece nos melhores contos de fada e não se lamenta.

– Mas não com esse homem da promoção! Nem de graça eu o levaria pra casa! Indignou-se Beatrice, sua melhor amiga.

Bea, como é conhecida, gosta de festas e badalação. Levou Anita para ajudá-la a escolher um vestido novo e bem decotado. Quer usar seus novos seios de silicone (250 gramas em cada um) como arma infalível para atrair os homens.

– Ah, como você pode ser tão insensível, Beatrice! Eu não queria gastar muito no Dia dos Namorados. Acho que vou dar uma olhada nesse.

– Até hoje não sei como somos amigas!

As duas entraram na loja e pediram a Claudinei para dar uma olhada no produto da promoção. Por sorte, existiam vários modelos.

– Este aqui é o mais barato e vem com duas entradas para o cinema, explicou o vendedor.

– Não tem um menos careca, com mais dentes e sem essa garrafa de cachaça na mão? Perguntou Anita.

Então o vendedor as levou até os fundos da loja e continuou mostrando os namorados em promoção.

– Anita, aquele não é o marido da Clarice?

– É sim, o Nestor. O que ele faz aqui?

– Como eu ia dizendo, interrompeu o vendedor, nossa loja dispõe dos mais diversos tipos de namorados para agradar nossas clientes. Esta é a sessão dos namorados casados. Esta outra é a dos namorados casados e com filhos, bem mais em conta. A loja Armazém do Amor sempre pensa na satisfação de seus clientes. Adquirindo o nosso produto você estará levando para casa acima de tudo, qualidade. A única coisa em que não nos responsabilizamos, é com as interferências de esposas e coisas do gênero. Com qualquer outro contratempo, garantimos a devolução do seu dinheiro.

Elas já tinham experiência com esse tipo de namorado e sabiam que era dinheiro jogado fora. Resolveram não arriscar novamente e continuaram analisando os modelos propostos por Claudinei. Até que uma nova remessa acabava de chegar, importada da Suíça.

– Na realidade, moço, eu queria um desses, disse Bea, segurando pelo braço um loiro com mais de 1,90 de altura.

– Pois não, vou providenciar um para você provar.

Enquanto Beatrice conversava com um dos namorados importados em um puff em formato de coração, Anita insistia no par ideal.

– Moço, eu sou assim mesmo, bem indecisa. Eu gosto de ter certeza que ficarei feliz com o produto que estou comprando.

– Mas que tipo de namorado mais ou menos você procura?

– Eu queria um homem sensível.

– Gosta desse?

– Muito bonito! Mas ele está na sessão de produtos para homens.

– Ah, desculpe, me enganei. É o costume. Mas descreva mais, quero ver se posso lhe ajudar.

– Queria passar o Dia dos Namorados com um homem inteligente, que goste de conversar e não queria só sexo e essas coisas que estamos acostumadas. Não precisa de entrada para cinema e nem jantar à luz de velas. Você me entende?

– Claro que entendo! Os homens de hoje só querem nos usar e depois nos jogam fora. Já passei por isso, amiga! Mas comprei um namorado para o dia 12 aqui na loja mesmo, um luxo! Mas para você está difícil. O Armazém do Amor jamais deixa uma cliente abalada emocionalmente. Vamos resolver o seu problema.

Claudinei revirava o depósito. Anita olhava a vitrine e se encantava com os mais diversos tipos de namorados. Exemplares que ela nunca tinha ouvido falar.

– Escuta, moço, esses “namorados canalhas” e “namorados grossos, violentos e estúpidos” vendem?

– Vendem sim, mas é porque algumas mulheres não sabem escolher direito, respondeu um outro atendente.

Os “namorados românticos” eram os mais procurados, por isso estavam em falta. Chamou a atenção de Anita o “Namorado Pacote Completo”. Claudinei explicou que estes eram os mais pedidos. Possuíam inteligência, romantismo, eram gentis e divertidos. Anita quis logo experimentar. Eis que por coincidência, apareceu Pedro, seu ex-namorado.

– Pedro, você por aqui?

– Mundo pequeno!

– Espera aí, você está à venda?

– É, eu sou do Pacote Completo.

Anita começou a mudar gradativamente de cor e ficou terrivelmente enfurecida, tanto que Pedro achou melhor sair de perto e voltar para a sua sessão. Ela chamou Claudinei e se queixou da propaganda enganosa.

– Vamos anotar sua queixa, mas você o adquiriu aqui?

– Não, ele era meu namorado de verdade.

– Então não podemos fazer nada, mesmo porque ainda não há registro de reclamações de clientes. Mas ele tem boas recomendações. Tem certeza que não o confundiu?

Anita tinha certeza que era o mesmo Pedro que sumiu de sua vida sem mais nem menos, após muitas declarações de amor. Aquele reencontro não a tinha feito bem. Chamou a amiga que ainda provava o namorado suíço e saíram com pressa. Beatrice não estava entendendo nada e Anita só começou a explicar quando estavam há uma certa distância da loja.

– Péssima idéia essa de arrumar um namorado para o dia 12!

– Você que fez questão…

– Mas e o suíço?

– Ele nem entendia português!

– Quer saber? Esse tal de Dia dos Namorados, presente, amorzinho, ficar junto e jantar à luz de velas é a maior frescura. Resultado dessa sociedade de consumo em que vivemos! Só vou me preocupar com isso novamente daqui a um ano.

– Mas bem que você queria…

– Era só para ter um motivo de comemoração também, nada mais.

– Viu só?

– Eu detesto procurar as coisas em cima da hora!

Então Anita teve a idéia de comprar sorvete e chocolate e convidar todas as amigas solteiras para uma sessão de filmes em sua casa. Mas com uma condição: nada de romances. Beatrice não poderia ir, já havia marcado um encontro com um ex-namorado bem antigo.

 

Marina Fiamoncini
Que se queixa da falta de opções do “mercado”

 

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2 Respostas

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  1. Naiara said, on 14/06/2007 at 5:32 am

    Original e criativo!!!!

    O mercadão (que não é de sucessos)… realmente oferece opções esquisitas, furadas, atrativas num primeiro momento, mas decepcionantes depois de três ou quatro diasss!
    Eu demorei quase três anos pra devolver meu ex ao mercado.
    E o pior, não tive devolução do dinheiro investido!!!!

    🙂

    Beijoooo Marina
    Amo os teus textos

  2. Odila Leonardi said, on 14/06/2007 at 11:03 pm

    Realmente, o mundo atual deve estar bastante difícil neste requisito de namorados, porque é explícito, descritivo e vem disposto em prateleiras, anunciado sem pudor e sem temor. Eu que sou a “tia” da Marina já perdi a conta de quantos “namorados” eu devolvi ao mercado consumidor comum. Foram anos de vários investimentos a fundos realmente quase perdidos. Digo, quase perdidos, porque alguém se beneficiou porque tive que escolar e educar vários para que soubessem ao menos usar bem os talheres,”não cortar o espaghetti com faca”, seu brutto! e outros etcs.Enfim,o governo deveria me pagar por ter educado tantos que devem ter virado bons pais de família ou pelo menos, “isso eu tenho CERTEZA!” subiram na vida e nas suas carreiras porque aprenderam pelo menos algumas regrinhas básicas.Eu recebi digamos sexercícios interessantes, o que fez bem a pele, e me deixou “tranquila” para tocar os meus “business” minha carreira de executiva, só que depois virei “executada” e mal paga, porque me estressei porque resolvi me apaixonar, entrar na emoção, comprei aquele pacote da “companheira ideal, romântica, pega junto,ajuda…” ah,ha,sei…pois é, dei com os burros n’água, e a culpa foi daqueles filmes de hollywood, que tinham sempre um final feliz…tim!…tim!….Meninas boazinhas não enriquecem!…preocupem-se com o fundo de garantia, conta bancária, carreira e fundos de pensão, …aquelas coisas…bem, é só de vez em quando mesmo. BEIJOS, TIA DILA.


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