Sejamos focas e não abutres

Posted in Artigo, Cinema by Colaborador on 20/06/2007

O filme A Montanha dos Sete Abutres, de 1951, do diretor Billy Wilder, com atuação de Kirk Douglas, é um clássico que evidencia e satiriza um péssimo exemplo de jornalista, na figura de Chuck Tatum. Embora tenha sido produzido na década de 50, o filme trata de um tema que se mantém atual e nos possibilita algumas comparações.

No meio jornalístico, a palavra “foca” além de tratar de um mamífero, com jeito amigável e meio desajeitado, é também o apelido dado aos recém-formados na profissão, os mais ingênuos, que se deslumbram com as primeiras pautas, que ainda não possuem a malandragem e a influência dos experientes profissionais.

Abutres são aves de rapina, necrófagas, ou seja, que se alimentam de animais mortos, e embora seja uma comparação muito agressiva, são como os jornalistas espertalhões, manipuladores e sem ética que utilizam desgraças alheias para conseguirem as primeiras páginas.

Tatum é um estereótipo de jornalista sabichão, um verdadeiro abutre ávido por um fato que pudesse colocá-lo de novo no auge e quem sabe lhe render um Pulitzer, (prêmio máximo do jornalismo). Ele dá um verdadeiro exemplo de jornalismo sem ética e sem princípios. Percebe-se o lado podre do jornalismo, quando Chuck utiliza o quarto poder para persuadir seu parceiro, manipular as autoridades locais, os fatos, uma esposa insatisfeita e acima de tudo sensibilizar o povo, através de sua trama.

O jornalista transforma um fato num verdadeiro jogo de interesses, usa o sensacionalismo como principal ferramenta de trabalho, e em prol de seus objetivos coloca em risco uma vida, preocupando-se apenas em “furar” os concorrentes da categoria e recuperar seu prestígio no meio.

Atualmente , atitudes como as de Tatum são tão corriqueiras, que chegam a parecer algo natural. Encontramos na capa de jornais manchetes e fotos supervalorizadas para atrair exclusivamente pelo forte impacto visual.

Na política vive-se um caos e a cada dia mais revelações bombásticas são divulgadas. O grande problema é que muitas são obtidas por meios ilícitos, com repórteres disfarçados, munidos de câmeras escondidas, microfones ocultos e até grampos telefônicos. Reportagens produzidas por jornalistas que ao invés de fazerem seu papel de apurar, atuam como polícia investigando e infringindo o direito de muitos cidadãos. Num primeiro momento, as denúncias são vistas como um exemplo de jornalismo, mas, no entanto, a forma como foram extraídas cerceiam o direito de liberdade e de privacidade.

Jorge Claudio Ribeiro, jornalista e professor da PUC(SP), ressalta que muitos jornalistas, na ânsia de se sobressair frente a seus empregadores, ultrapassam os limites da ética, quebrando o sigilo das fontes, invadindo a privacidade de pessoas e inventando acontecimentos.

E quando o assunto é segurança, crime organizado e narcotráfico, percebe-se um louvável empenho dos jornalistas em fazer suas reportagens em meio a linha de fogo entre traficantes e policiais, bem como adentrar em favelas dominadas pelo crime em busca de informações reveladoras ou mesmo de prestígio diante dos colegas, como aconteceu com o jornalista Tim Lopes.

O jornalista Ricardo Noblat, afirma que uma matéria jornalística não vale a vida de uma pessoa. Por maior que seja a obrigação do jornalista de informar bem o público, ele deve respeitar o limite, para não perder a própria vida. Noblat enfatizou que o limite da vida é também o limite da ética.

Outro problema são os profissionais que utilizam seus espaços midiáticos para beneficiar seus padrinhos políticos ou para derrubar de maneira caluniosa, seus adversários ideológicos. Isso sem contar os que aproveitam a representatividade dos veículos e sua credibilidade com o público para obter uma grande fatia publicitária, inserindo-as em meio as matérias jornalísticas.

A ética é parte vital nos jornalistas, uma virtude que precisa crescer com o profissional, como o caráter que é formado desde a infância. É primordial que um baixo piso salarial e os interesses políticos das empresas jornalísticas, não corrompam a vontade de mudar e de manter-se no mercado de trabalho como focas e não como abutres, que fazem da ética uma utopia.


A montanha dos sete abutres (Ace in the Hole)
Roteiro: Walter Newman, Billy Wilder e Lesser Samuels
Direção: Billy Wilder
Duração: 111 minutos
Gênero: Drama

[+] Último segundo – Observatório da Imprensa

[+] Diário Vermelho

 

Eduardo Gomes
Que é fótografo e futuro famoso jornalista

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4 Respostas

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  1. Pega no meu Blog said, on 20/06/2007 at 1:58 pm

    Edu, gostei muito do seu texto!
    esse filme é clássico! ilustra realmente muito bem um profissional sem ética alguma. é trite constatar que ainda haja muitos assim! a mídia tem um poder de persuasão enorme, principalmente em um país de analfabetos e acomodados chamado BRASIL!
    abração garoto e continue colaborando com seus textos!!!!

    sal

  2. Felipe said, on 20/06/2007 at 3:57 pm

    O texto ficou legal. Concordo em muitas partes, embora não tenha visto o filme ainda. Só não concordei quando vc fala “É primordial que um baixo piso salarial e os interesses políticos das empresas jornalísticas, não corrompam a vontade de mudar e de manter-se no mercado de trabalho como focas e não como abutres, que fazem da ética uma utopia.”
    Acredito que o jornalista pode não ser foca e não ser Abutre, visto que foca é “apelido dado aos recém-formados na profissão, os mais ingênuos, que se deslumbram com as primeiras pautas, que ainda não possuem a malandragem e a influência dos experientes profissionais.”

  3. Fábio Ricardo said, on 20/06/2007 at 6:50 pm

    Não vi este filme, infelizmente. Não sei se “foca” é o oposto de “abutre”, mas creio que não. Você pode ser um profissional sério e respeitado, respeitando o limite da ética, sem ser nem um ávido detetive de pautas, nem um abutre comedor de carniça. Se bem que, no meu entender, cada um tem sua ética. Não existe uma ética padrão que todos seguem. Isso se chama lei. Ética é uma coisa pessoal.

  4. Eduardo said, on 22/06/2007 at 6:10 pm

    Felipe, só para esclarecer, quando falo em primordial, quero dizer que é indispensável e elementar que mesmo com baixos pisos saláriais, com o interesse econômicos dos donos dos jornais nós jornalistas continuemos a ser como focas, empolgados com a profissão e éticos, e não como abútres, jornalistas sem éticas e espertalhões.
    Claro que existem jornalistas inteligentes, competentes, experientes e éticos, dái não são taxados de abutre.


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