Jornalismo literário e afins

Posted in Artigo, Opinião by Colaborador on 10/08/2007

Nota do editor: Este texto foi escrito originalmente como comentário ao texto Eu, você, nós e a mídia amanhã, de autoria de Naiza Comel.

Essa questão de Jornalismo Literátio, Web, etc., vai longe mesmo. Mas o que penso é que caminhamos num sentido de “cotidianeização” (deriva de cotidiano — inventei o termo agora) da vida, e é óbvio que da comunicação também. Isto, por um lado, é claro que quebra com uma certa linearidade narrativa. Não é um falando e outros lendo, ouvindo, vendo, como na comunicação de massa ou como nas Mil e Uma Noites.

É uma conversação constante, todos querendo falar ao mesmo tempo, várias descontinuidades no meio disto tudo e poucos critérios. Desde que o outro urre e a gente entenda, ok. Funciona mais ou menos assim na Web, e não porque não temos espaço, mas porque não temos tempo, dada a quantidade de informações, por um lado, e a quantidade de nossos interesses (em viver, em brincar, em fuçar, em bater papo, etc.) que não nos faz passivos.

Outra coisa interessante é que, sendo a vida cada vez mais global — portanto mais urbanizada e mais homogênea também (todos comendo a mesma coisa, vestindo-se de maneira semelhante, mesmo que inventem tribos para se diferenciar — não há mais o relato do viajante das terras desconhecidas, das Índias, do deserto ou do mar. O mundo ficou menor, nesse sentido. E não há mais muitas histórias de mistério, fábulas, etc., a se contar.

Terceiro, nosso senso crítico e nossa vontade de participar, de ver como se faz, de self-service e make your self, desmistifica muitas fábulas, narrativas grandiosas, cânones, etc. É mais um ponto para a tal cotidianeização da vida. Reis, rainhas, desportistas, presidentes, o vizinho do nosso lado, etc., podem ter várias histórias, mas a gente sabe que contar alguma delas é sempre engrandecer este ou aquele fato — e nós queremos é ver, é participar, e não que nos contem a história. Nós não queremos ver uma boa foto, mas sim fazer uma foto (mesmo que ela seje boa para nós). Chegamos ao absurdo de viajarmos a lugares históricos e visitarmos todo um monumento com o olho no visor da câmera. Deixamos para “ver” o lugar ao qual viajamos depois, quando editamos as fotos no Photoshop. Também, à medida que viajamos mais e vemos mais imagens, etc., deixa de ser novo um lugar diferente. Vamos a ele já com imagens feitas na cabeça. Tanto que é comum uma pessoa que vê um guia turístico se decepcionar, ao chegar em algum lugar, porque aquele local não se parece com as fotos ou com as descrições que foram feitas (com a idéia, na verdade, que a pessoa botou na cabeça sobre aquele lugar).

Diante disto, acho que essa questão do literário é um pouco complicada de ser tratada. Queremos, sim, instantaneidade, cotidianeidade, a vidinha besta e comum mais do que qualquer grande narrativa, qualquer cânone. Nosso espírito é de quem bota bigodes na Mona Lisa e não como quem suspira ao contemplá-la, entendes? Vamos ao cinema ver uma megaprodução para ver a ação, as explosões, a iluminação e os efeitos especiais. Não importa se há erros históricos na narrativa, não importa se o papel principal é feito pelo ator mais pop de Hollywood (alias, vende mais).

Jornalismo Literário é uma coisa de solitário, de lobos, de uma meia dúzia que tira do próprio bolso, se demite, se mete num lugar esquisito, no meio de gente esquisita, e conta uma história que vai interessar, muitas vezes, a colegas que tem pretensões parecidas. Penso que a idéia é partirmos, cada vez mais, para o fragmento, a brincadeira, a relativização cada vez mais, o cotidiano (embora eu lamente isto em vários aspectos, é claro).

Rogério Kreidlow
Que também é jornalista por formação

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7 Respostas

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  1. Raquel said, on 10/08/2007 at 2:38 pm

    Interessante!

    Vou procurar me inteirar do tema… 😉

  2. Rogério Kreidlow said, on 10/08/2007 at 7:48 pm

    Legal Joel.
    Depois que comentei é que percebi que podia ser um post isso.
    O lance é estabelecer essa “conversação”. Obrigado.
    Abraços

  3. Leonardo Camacho said, on 10/08/2007 at 9:09 pm

    Interessante notar um fenômeno: apesar da “cotidianização” (ótima criação), as coisas do dia-a-dia, aquelas pequeninas que a gente só percebe de vez em quando (quando percebe) estão cada vez mais distantes dos nossos olhos. O que podemos dizer, então, das coisas grande, importantes, vitais.

    A realidade deixou de ser observada de uma tal maneira que um político que adota em sua plataforma eleitoral o conceito de “limpeza étnica contra gays” (veja em http://leonardocamacho.blogspot.com/2007/08/vice-prefeito-de-treviso-na-itlia.html) pode ser considerado um canditado favorito as eleições prefeitáveis de uma cidade européia (berso da democracia). As pessoas têm se distanciado tanto da realidade que ninguém se indigna pelo fato de Marcos Valério estar solto comprando fazendas pelo Brasil afora. Parece que os dias perderam o sal… parece que todos querem fazer o amanhã, mas se esquecem que o amanhã começa hoje. (desculpe o desabafo).

    Realmente, a linearidade histórica foi para as cucuias (há tempos) e parece que o homem ainda não se acostumou, ainda, em morar em uma pequena aldeia global chamada Terra. Agora, a visibilidade mudou, a reputação se constrói com mais dificuldades e se distrói com mais facilidades e a merda voa muito mais longe depois da reforma no ventilador chamado mídia.

    Muito bom o BLOG… excelente.

    Proponho: me visite, vamos manter uma conversação. O que acha?

    Abs. cordiais

    Leonardo Camacho
    (tb) jornalista por formação

  4. ediney said, on 02/10/2007 at 9:23 am

    muito bom teu texto e as inforamções daqui

  5. Luh said, on 04/09/2009 at 6:42 pm

    e quanto a literatice???
    aguardo resposta

  6. […]  https://peganomeu.wordpress.com/2007/08/10/jornalismo-literario-e-afins/ […]

  7. abdulah said, on 18/05/2011 at 9:02 pm

    “Seje” foi foda… (6ª linha do 4º parágrafo)


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