Fascínio

Posted in Comportamento, Relato by . on 20/08/2007

Revendo na câmera digital as fotos tiradas a alguns minutos ouço uma voz doce. Olho para baixo e um ser com pouco mais de um metro pergunta:

– Tia, posso ver?

Abaixo a câmera e mostro a foto para a pequena menina de cabelos finos e castanhos amarrados no alto da cabeça deixando cair inocentes cachos. Por alguns segundos ela observou o visor com atenção. Sua concentração só se perdeu quando outra menina do mesmo tamanho e de cabelos loiros claríssimos veio em sua direção repetindo um aviso da professora para entrar na sala.

Algumas vezes já fui interrompida por olhinhos curiosos pela máquina fotográfica. Porém, o mais surpreendente é que as crianças têm total intimidade com o aparelho. É tão natural olhar para o visor atrás da câmera depois de apertar o botão que, certa vez, presenciei uma menina de quatro anos fotografando milhares de coisas com uma câmera analógica até que um adulto a fez parar porque o filme iria acabar. Ela não havia entendido o porquê e nem a razão de as fotos não aparecerem no visor.

Hoje a menina que me chamou de tia me fez imaginar o que as crianças pensam da fotografia. Talvez a idéia de parar uma imagem no tempo para ser contemplada mais tarde é algo complexo para os pequenos, mas se ver em uma imagem congelada é sem dúvida fascinante para todas elas.

Lembrei da infância e do quanto gostava de tirar fotos. O mais interessante era esperar pela revelação do filme. Abrir o pacote com as fotos era um momento aguardado com ansiedade. Lembrava-me vagamente das imagens e reconstruía-as em pensamento, depois via que estavam diferentes do que imaginei. Por algumas vezes até me frustrei por perder todas elas, isso antes de aprender que não podia abrir a câmera antes de rebobinar o filme.

Posso ter atitudes “ultrapassadas”, mas gosto de ver álbuns antigos, fazer comentários, ver as fotos dos outros, de saber o que faziam ali, quem estava com eles, como estava o clima. Além da foto, o momento é marcado por sentimentos importantes que não se perdem com o tempo e nem com a tecnologia.

Pode ser que o lado romântico da fotografia se torne apenas uma lembrança. Só lamento pelos pequenos que não tiveram a sensação de tirar aquele tipo de foto que depois se tornaria uma surpresa. Até agora estou imaginando o que aquela menina pensou quando ficou olhando para o visor da câmera. Talvez eu nunca mais a veja. Talvez fique com essa curiosidade para sempre ou ainda, talvez ela tenha tido uma emoção forte, daquelas que eu sentia quando esperava a revelação ficar pronta. Vai saber…

 

Marina Fiamoncini
Que gosta de parar o tempo de vez em quando

 

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5 Respostas

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  1. Raquel Elena said, on 20/08/2007 at 2:24 pm

    A tecnologia restringiu hábitos, modificou valores e deu um novo olhar sobre o antigo.
    Jamais existirá uma infância tão rica como a nossa, mesmo com tantas descobertas tecnológicas maravilhosas, ainda assim não haverá como resgatar sentimentos de outrora…

    Parabéns Marina pela postagem!

    Talvez a menininha tenha comparado a imagem real com a congelada na máquina, sem dúvida a imaginação dela foi longe, muito longe.

  2. Sal said, on 20/08/2007 at 2:32 pm

    menina marina…
    fazendo uma comparação ao seu sentimento sobre fotografias, eu tenho isso com música. aguardar o lançamento do seu artista preferido, ir na loja de discos, comprar o LP (sim, aquele de vinil preto) e ir para casa ansioso para botar a agulha no sulco inicial e ficar se deliciando com as canções e a arte gráfica da capa. que de longe nos LPs era bem mais interessante!
    beijos

    sal

  3. Aline said, on 20/08/2007 at 8:57 pm

    Adorei o texto Marina, muito bom. Também gosto muito de fotografias e qdo era uma pirralhinha do tamanho dessa que te chamou de tia também ficava esperando os filmes revelados pra ver como tinham ficado… Ador essa coisa nostálgica, tenho 21 anos e posso me considerar velhinha já, mas não podemos dizer que a tecnologia é tão ruim, e que não temos mais a mágica da coisa. Temos sim, afinal, aquele momento vai ficar registrado, na analógica ou na digital, a minha banda vai tocar, seja aquela dos anos 1980 no vinil ou a de 2007 no CD, o sentimento é o mesmo… e afinal, lá em 2027, essas crianças provavelmente terão essa mesma saudade das coisas que marcaram a sua infância… É assim, e sempre vai ser.

  4. Tati said, on 21/08/2007 at 12:15 am

    Eu sou como voce, AMO fotografia.
    Para ser mais exata, AMO lugares historicos,rs.
    Eh tudo tao magico, tao lindo….que eternizar aquele segundo vale mais que tudo!

    Mas infelizmente, sao poucas as criancas que tem uma curiosidade saudavel. No orkut mesmo, vc acha cada absurdo de fotos com criancas, lamentavel.

    As vezes eu acho a inclusao digital maldita, pra dali 2 min. achar que ela eh uma bencao, apesar dos pesares.

  5. Rogério Kreidlow said, on 21/08/2007 at 5:48 am

    Fotojornalistas que tinham de chegar às pressas da rua, no fim do expediente, esperar mais 20 minutos pra revelar o filme em salas escuras e fétidas, ampliar as pressas (sem fixar direito) as cópias em papel, dão graças a deus que a fotografia digital chegou.

    Pessoas que não sabem tratar imagens no Photoshop, às vezes acham-na uma desgraça. Turistas, adolescentes, gente comum, acha uma maravilha, porque dá de ver a foto na hora. A indústria fotográfica, de início, pareceu não gostar muito. Tempos atrás, a Kodak cortou uma multidão de funcionários de seu setor de fotografia analógica para investir só em digital, cada vez mais.

    Chegou a Canon com sensores Full Frame que, segundo análises, em RAW, já ultrapassam a qualidade de uma fotografia analógica. Tem grupos de fotógrafos de Fine Art que vão continuar por mais umas boas décadas trabalhando com PB, cromo, etc.. Isso, só pra falar das reviravoltas da tecnologia.

    A gente, hoje, é que tende a ver a revelação de filmes ou LPs com saudosismo. Para gente da geração de nossos pais, aquilo era como o digital hoje. Não tinha nada de passado. Era o novo, o atual. E nossa geração também já teve uma infância com muitas horas vendo programas (que hoje consideramos toscos) de televisão, ou seja, para um adolescente de hoje, acostumado com a interatvidade, pode parecer uma tremenda chatice (como pareceu a nós uma chatice a infância de nossos pais, que começavam a trabalhar cedo, a ter responsabilidades e não tinham lá grande liberdade de brincar).

    Enfim. A vida é rotineira ao longo do tempo e não melhor ou pior — e essa coisa de achar que o passado ou o futuro será ou era pior ou melhor é ainda mais rotineira. A gente é que se deslumbra.

    Abraços


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