Difícil é não chorar

Posted in Literatura by Colaborador on 21/08/2007

Lá estava eu novamente, aquilo precisava ser feito. A prática já havia se tornado uma rotina – ingrata para alguns e necessária para o bom desenvolvimento das coisas, segundo outros. Enquanto isso, ela estava lá também, quieta em seu canto, junto a outras e sem imaginar seu destino. Aliás, acredito que nada passava por sua cabeça naquele momento.

Mesmo se meu olhar estivesse desatento, não seria difícil perceber que ela era a melhor entre todas. Ela refletia a luz de uma maneira única, em tons acobreados, puxando para o vermelho, como se estivesse vestida por uma camada de rubi. Com tantos odores naquele ambiente, variando do doce ao salgado, seu cheiro se destacava, em uma impressão forte e marcante.

Houve a precipitação e minha mão esquerda foi sem titubear em sua direção. A escolha estava feita, hoje seria ela. Sem dúvida. Nesse mesmo instante, a mão direta agarrou firme a faca que estava no balcão. Não sei muito bem porque fiz, mas no momento em que senti firme o cabo em minha mão, girei como se fosse uma baqueta.

Os movimentos, ao mesmo tempo em que pareciam involuntários, foram precisos. Minha mão esquerda sentiu sua textura firme e lisa, sem nenhuma imperfeição. Recostei aquela cabeça sobre o balcão, com cuidado. Ela não esboçava reação. Eu estava indiferente. Tudo seguia dentro do esperado para a situação.

Dois golpes rápidos. Um no topo e outro na base da cabeça. Comecei a escalpelar com os dedos, na brutalidade de quem é indiferente com os meios. Agora ela estava desnuda e pálida, bem ali, na minha frente. Respirei fundo, pois os próximos movimentos eram os piores. Mais um golpe, que dividiu a cabeça em duas partes. Senti dificuldade em fazer a lâmina atravessar tantas camadas.

A mão direita não largou a faca. A esquerda foi para uma gaveta, em busca de um aço de amolar. As duas ficaram munidas das ferramentas certas para o que era necessário. Faca e aço se encontraram como amantes há muito tempo sem se ver. Roçaram seus corpos como em uma dança alucinada, em movimentos frenéticos e gemidos metálicos.

Por Deus! Não sou um açougueiro, pensei. Larguei o aço e fui conferir o resultado na lâmina. Passei o dedão esquerdo pelo fio de ferro, que me marcou com um fio de sangue. Levei o dedo à boca, quando senti o sabor do sangue temperado com o gosto dela. Ela!

Foi o mesmo com as duas partes da cabeça: picadas nas menores partes possíveis, com cortes horizontais e verticais. A cada golpe seu cheiro era mais intenso. Eu precisava ser rápido, meus olhos estavam prestes a transbordar. Continuei até ter certeza que estava bem feito.

Joguei rapidamente na panela com um fio de óleo. Ela, mesmo em pedaços, deu seu último suspiro chiado. Estava feito. Uma lagrima rolou em meu rosto. Mas a cebola picada era só o primeiro ingrediente para o molho da macarronada. Respirei fundo e me recompus. Agora, onde está o alho?

Joel Minusculi
Que aprecia o ritual do preparo dos alimentos

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4 Respostas

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  1. Marina said, on 21/08/2007 at 5:15 pm

    ótimo Joel!
    a melhor coisa que eu li neste blog nos últimos tempos, e olha que esse blog é muito bom!
    hehehe
    muito bem escrito e super criativo!
    parabéns parabéns!

    beijooos

  2. wagnermoura said, on 21/08/2007 at 5:58 pm

    Nossa, tanta aventura num ritual cotidiano! Mas é isso. Ver a vida com seus detalhes faz toda a diferença. Meu caro, faz favor, divulga aí mais um dos equívocos da Dra. Mayana Zatz: http://diasimdiatambem.wordpress.com/2007/08/21/gafe-mayana-zatz-e-esquecida-em-parapan-americano/

  3. Raquel Elena said, on 21/08/2007 at 10:04 pm

    Sensacional!!! 😀

  4. helena said, on 22/08/2007 at 2:03 am

    uhauhauhuaha
    muitooo bom!!
    ameiiii! apesar de saber desde o começo que era uma cebola
    ;DD

    ;****


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