Arado

Posted in Comportamento, Crônica by Colaborador on 07/12/2007

Esperei passar despercebido em quase todos os momentos. Não quero por o som alto para minha companheira imaginária e os milhares de vizinhos ouvirem minhas músicas ordinárias por todo o canto. Quero parecer o mais pacato e brando possível em meio a todo o tumulto da humanidade que vaga por aí. Desde criança tive a vontade eterna de aparecer o menos possível e nas apresentações de cartolina branca em frente a minha sala de todas as séries, era o lugar onde nunca quis estar. Analisando todas as minhas apresentações de colégio, eu me saí razoavelmente bem, nunca desmaiei lá na frente e nem um fui ditador com extrema habilidade labial.

Quando as pessoas são mais velhas que você elas tem por obrigação lhe forçar a fazer as coisas que elas não têm coragem de fazer. Meu tio era assim. Eu nunca pensei nele como tio nem nada disso, porque quando eu tinha uns 10 anos ele já era menor que eu. Tinha um problema de crescimento que combinava com ele. Morava na fazenda e cuidava dela com todo amor e carinho de alguém que fugiu da civilização. Ele gostava de comer naqueles pratos de metal e nas xícaras de peão, eu achava aquilo demais e acabava queimando a mão na hora de comer. Engraçado, simpático e estranho.

Todo mundo da família, eu já definia em minha cabeça seguindo um estereotipo dos filmes da TV. Minha avó era a pão-dura, meu avô o ex-combatente de guerra que queimava o lixo no quintal, minha tia a menina mimada superprotegida e minha mãe a mulher neurótica que casou com o cara errado. Você aprende isso ouvindo as brigas de família e tudo mais. Mas daquele meu tio eu não sabia nada direito. Só que ele gostava de comer a cabeça do peixe, jorrar pimenta na comida e que tinha matado o cachorro da fazenda sem motivos.

Deve ter sido nas férias dos meu 11 anos. Eu e meu irmão fomos pra fazenda lá pelas bandas de Sanclerlândia, onde o mundo não era mundo. Achávamos que iria ser só diversão por um mês inteiro. Eu tinha um daqueles tênis da Adidas, estilo basquetebol e lasquei ele todo ajudando meu tio nas tarefas diárias da fazenda Boa Esperança. As coisas começaram a se exceder quando eu percebi que estávamos arando o campo. Aquele cara, menor que eu, estava nos ordenando severamente a abrir buracos no chão em um calor dos diabos. Meu irmão levava torrões de terra nas costas e xingamentos por não guiar o cavalo direito.

De todos os momentos da minha vida, aquele sol escaldante da tarde e o arado cortando o solo marrom da terra, nunca conseguiu sair da minha cabeça. Outro desses foi quando andávamos de naquele Volkswagen Gol quadrado escutando ele falar de mulheres e nos obrigando a dizer o que faríamos com elas na cama. Minha mãe era a única mulher que eu conhecia, e como não sabia nada delas eu não conseguia expelir nenhuma palavra. Aquele cara me tirou do carro e me deixou no meio de uma estrada deserta. Sozinho ali, acho que decidi pelo resto da minha vida não falar sobre coisas que não sabia.

Renan Accioly
Que é titular do Velharias

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: