Desbotado

Posted in Comportamento, Opinião by Colaborador on 17/12/2007

São mais ou menos nove anos que vivo nesse colapso mental por garotas. Minhas relações que beiram ao desastre são salvas por poucos e raros êxitos. Lembro do primeiro beijo como se fosse agora e ainda sinto a inocência que envolvia minha pessoa e a da outra garota. Foi um complô. Irmão e irmã mais velhos cuspindo em um dos poucos momentos nobres da minha vida. É, eles armaram um plano maquiavélico para ver um beijo entre crianças. Vejo aquela casinha de brinquedo, dessas grandes onde as crianças ficam brincando, eles nos empurraram lá e com aquelas mãos pavorosas nos apertaram um no outro. Acho que esse caso não afetou muito nossa vida. Agora ela é uma aprendiz de cabeleireira com vasto currículo em boates e, evidentemente, garotos.

De uma maneira ou de outra, ela foi a primeira C da minha vida, e por que não meu primeiro desastre. C que eu digo não é em relação ao numero de garotas com a letra c, mas sim a quantidade de garotas com o mesmo nome que eu já tive contato. Sempre é o mesmo nome, e essa ligação não é exigência. Depois daquele incidente pouca coisa mudou. Eu ainda não sabia o que pensar sobre as garotas e nem o que eram elas, e acho que não mudou muito de lá pra cá. Aquela era uma época remota, tudo que se seguia era a rotina diária de um pré-adolescente que não sabia o que queria. Nós até desejávamos aquelas estrelas da nossa classe. Aquelas garotas populares que abusavam da nossa infância. Desfilavam de lá pra cá, despertando desejos que sequer nem existiam.

Um certo dia, uma garota de longos cabelos cacheados veio falar comigo. Ela tinha uma ótima aparência e era legal falar com ela. Acho que era Ana Carla, mas gosto de pensar que era Ana Clara. Sua reputação era boa, tinha um belo corpo para sua idade. Conversávamos durante a aula de ciências, ela até sentava na carteira ao lado. Foi a primeira vez que vi brotar uma coisa estúpida dentro de mim, que me deixava encabulado e um pouco mais respeitável. As meninas me olhavam e não mais me ignoravam. Os garotos crentes que eu já a havia beijado me enchiam, só não negava a hipótese.

Em uma manhã daquelas, ela me apareceu com uma proposta indecente de que lhe desse meu colar de prata. Minha mãe havia me dado aquilo, e ele nem era de prata. Estava desbotando e adquirindo um aspecto rosado. Não dou! – respondi na lata. Não entendia o que estava acontecendo. Ela falou: Ahh! Me dá. Mas por que diabos você quer isso? – perguntei. Eu quero algo de você – falou. Nunca ninguém nessa maldita vida havia me dito que queria algo de mim. Eu era apenas mais um comparsa dos mais diversos cretinos de quatorze anos em todo o planeta. Dei aquilo pra ela e nunca mais ouvi sua voz em minha vida. Não sei se fui roubado, enganado ou algo desse tipo. Só sei que me senti mal como nunca havia sentido em minha vida. Agora, com dezenove anos, estou prestes a dar um livro para uma garota. Chama-se “O apanhador no campo de centeio” e assim como Holden Caulfield , o protagonista do livro, eu não sei se estou preparado. Voltei para aquela casinha de brinquedo.

Renan Accioly
Que é titular do Velharias

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2 Respostas

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  1. Renara Almeida said, on 17/12/2007 at 8:02 pm

    Caramba Renan, amei o seu texto!
    O primeiro beijo muitas vezes é traumático e sei bem o que estou falando, rs..

  2. Joel Minusculi said, on 17/12/2007 at 9:58 pm

    Infelizmente existem mulheres que levam bem mais do que nossos cordões. A questão é saber aquelas em que podemos nos entregar “fora da casa de brinquedos” (no caso, achei uma, né Renara? =P). Muito bom o texto. Isso prova que, apesar de nós homens ocultarmos nossos sentimentos, temos sim o que sentir (e muitas vezes ressentir).


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