Aromaterapia

Posted in Artes, Comportamento by Joel Minusculi on 28/12/2007

O tratamento que está bem na frente do seu nariz

A aromaterapia ainda é considerada um método alternativo, porém, os resultados obtidos com sua aplicação movimentam a opinião de especialistas em tratamentos de saúde.

O que você sente quando lembra do aroma de um campo de flores? Do cheiro de terra molhada em um final de tarde chuvoso? Ou daquele tomate escondido há dois meses no fundo da sua geladeira? Recordar estes aromas, com conseqüentes reações, está relacionado com uma das formas das quais podemos perceber o mundo ao nosso redor. Dos nossos cinco sentidos, o olfato é o que tem maior capacidade de processar informações que podem despertar sentimentos de tranqüilidade, agitação e medo – na chamada memória olfativa.

Nosso olfato está intimamente ligado à percepção de ambiente. Através dele organizamos nosso cérebro com o objetivo de melhor se adaptar ao meio. É o rinecéfalo – composto pelas palavras do latim “cheiro e “cérebro” – que responde pela área olfativa e é a parte que se desenvolveu primeiro no cérebro humano. Um odor pode ser a combinação de vários outros diferentes. Se tanto um odor apodrecido quanto um aroma doce estão presentes no ar, o dominante será aquele que for mais intenso. Caso ambos forem da mesma intensidade, a sensação olfativa será entre doce e apodrecido.

Os aromas são medidos em nota e intensidade. A primeira diz respeito ao tempo de evaporação do odor. Cheiros que se vaporizam rapidamente com a pressão do ar e a temperatura, como cítricos, possuem nota alta. Por sua vez, os cheiros doces, que demoram mais para vaporizar, têm nota baixa. Quanto à intensidade, os cheiros são classificados em fortes, médios ou fracos. Esses critérios são os mesmos utilizados na composição dos perfumes.

Estudiosos da evolução consideram que a capacidade de experimentar e expressar emoções teria se desenvolvido a partir da capacidade de processar odores. Prova disso é quando uma pessoa sofre um trauma que a faz perder o olfato. Muitas vezes o impacto é devastador: as experiências de comer ou fazer amor, ou mesmo passear numa manhã de primavera, ficam extremamente diminuídas.

Quando sentimos um cheiro, nosso cérebro recebe uma mensagem simples: ou a gente gosta ou não do que sente. Consequentemente, isso nos causa o sentimento primário de simpatia ou desgosto pelo emissor do odor. É justamente no jogo de sensações que a aromaterapia, um ramo da osmologia – estudo dos odores – baseia seus tratamentos nos efeitos que aromas são capazes de provocar nas pessoas.

O tratamento através dos aromas é considerado alternativo e é baseada na fitoterapia – o estudo das plantas medicinais e suas aplicações na cura das doenças. Os ingredientes para a prática da aromaterapia são normalmente encontrados em lojas de produtos esotéricos. Michelle Ferreira é vendedora há cinco em um desses estabelecimentos, no centro de Balneário Camboriú. Ela diz que a procura por produtos para a aromaterapia cresce a cada ano. “As pessoas vêm para encontrar um medicamento, mas acabam descobrindo que deve ser uma prática constante”, explica Michelle. Mas não é de agora que as pessoas usam os cheiros para aliviar seus males.

No rastro da história

O uso do aroma de óleos e essências para tratamentos é mais antigo que os registros históricos da humanidade e está intimamente ligado a arte da perfumaria. Antigas civilizações ao redor do mundo utilizavam extratos de ervas em rituais de curandeirismo. Referências em manuscritos datados de 2500 a.C. apontam o uso de óleos finos, perfumes e os incensos de templos usados para a adoração de deuses. Já no Shen Nung, o livro médico mais antigo da China, datado de 2000 a.C., são mostrados o ópio e o gengibre para uso terapêutico e para cerimônias religiosas.

Há passagens no Rig Veda, um conjunto de hinos hindus escrito por volta de 1700–1100 a.C, do uso de extratos alcoólicos que não eram empregados simplesmente como perfumes, mas para cerimônias religiosas e tratamentos terapêuticos. Na antiga Grécia, o médico Dioscorides Pedanius pesquisou as origens da destilação depois que notou as possibilidades médicas das águas destiladas – os chamados hidrossóis. Nesse estudo, ele descobriu que os persas e os egípcios isolavam os óleos de terabintina (madeira de pinheiro) e resina de mastique através da destilação ao seco.

Os romanos, grandes especialistas em perfumes, conheciam os óleos aromáticos e teriam tomado muito do conhecimento dos gregos. Anos mais tarde, durante as Cruzadas, o conhecimento dos óleos aromáticos e perfumes difundiu-se para o leste da Arábia. Um físico conhecido como Avicena, que viveu do ano 980 a 1037, foi reconhecido por ter sido o primeiro a utilizar o processo da destilação para extrair o óleo de rosas. Demorou muitos anos para que o método fosse aperfeiçoado adequadamente.

Mas nenhuma outra nação esteve tão bem treinada em alquimia, medicina e terapias naturais do que os árabes. As pessoas que lidavam com óleos e infusões eram conhecidas como alquimistas. Foi no século XIII que muitos óleos essenciais – misturas voláteis, geralmente odoríferas líquidas e puras, extraídas das partes de plantas, como folhas, flores, frutos, caules, cascas e raízes – foram destilados pela primeira vez. A intenção das destilações era se obter a Quinta Essência, tão procurada pelos alquimistas.

A QUINTA ESSÊNCIA

Quinta essência é uma alusão à Aristóteles, que considerava que o universo era composto de quatro elementos principais – terra, água, ar e fogo-, mais um quinto elemento, uma substância etérea que permeava tudo e impedia os corpos celestes de caírem sobre a Terra. Em 1998, três astrofísicos da Universidade de Pensilvânia – Robert Caldwell, Rahul Dave e Paul Steinhardt – reintroduziram o termo para designar um campo dinâmico quântico que é gravitacionalmente repulsivo.

Fonte: “The quintessencial Universe”, Scientific American vol 12, número 2, 2002, pagina 41.

 Foi somente durante os séculos XVI e XVII que os óleos essenciais receberam suas primeiras aplicações e sua introdução no comércio. Porém, o termo “aromaterapia” só viria a surgir em 1928, através do químico francês Maurice René de Gattefossé. Através de uma experiência pessoal com óleo de lavanda, Gattefossé ficou fascinado com as possibilidades terapêuticas dos óleos essenciais ao utilizar lavanda pura em uma queimadura na sua própria mão em um acidente em seu laboratório. Além disso, descobriu que os óleos essenciais funcionam melhor em sua totalidade puros e naturais, não com a composição isolada ou sintetizada – misturada a outros ingredientes. Depois do químico francês, o estudo sobre óleos essenciais se difundiu pelo mundo e a aromaterapia encontrou nas diversas culturas sobre os aromas complementos e novos elementos para sua prática.

Cheiros que curam?

Também ao longo do tempo, junto ao interesse pela área, cresceu a indústria dos sintéticos, as chamadas essências, que domina hoje o mercado no mundo todo. Isso contribuiu na divulgação da aromaterapia através de um intenso marketing e serviu para a criação de diversos cosméticos, porém, isso prejudicou e degradou a utilização e o uso terapêutico dos óleos essenciais para a aromaterapia – já que produtos sintéticos, como descobriu Gattefossé, não podem ser comparados a produtos naturais em seus efeitos terapêuticos.

A tecnóloga em Cosmetologia e Estética, Gabriela Claudino dos Santos, explica que a prática da aromaterapia afeta os sentimentos, relaxando ou revigorando a pessoa. O tratamento pode ser empregado em contexto medicinal, terapêutico, cosmético, psicológico e espiritual. Para isso são usados, principalmente, óleos essenciais que, segundo Gabriela, são usados em inalações diretas, massagem terapêutica, compressas, banhos, aromatizadores de ambiente e saches. “Mas é importante ter o conhecimento de que os únicos óleos essenciais que podem ser usados puros na pele são a lavanda e tea trea (melaleuca)”, esclarece Gabriela Claudino.

A vendedora Michelle Ferreira diz que para usar os óleos essenciais é necessário apenas um difusor especial, encontrado junto com as essências, que pode ser a vela ou elétrico. “A pessoa pinga algumas gotinhas nele, aí o calor faz com que a essência evapore e preencha o ambiente. Para que o efeito seja completo, a pessoa precisa estar relaxada, respirar fundo e se deixar levar pelo cheiro”, detalha. Mas não é necessário um ritual específico com todos os óleos, pois segundo Michelle, alguns deles podem harmonizar o ambiente para a pessoa.

Os médicos não esperam que tratamentos como a aromaterapia curem os pacientes. Mas acreditam que elas possam funcionar como coadjuvantes na redução do stress, o que favorece o bom funcionamento do sistema imunológico. “As evidências de benefício dessas práticas são muito subjetivas, porque é muito difícil quantificar até que ponto elas são as responsáveis pelo bem-estar relatado”, comenta o diretor-científico da Associação Médica Brasileira, Giovanni Guido Cerri.

Alguns especialistas, no entanto, têm restrições à aromaterapia. O otorrinolaringologista, Dr. Fernando Gosling, não aconselha o uso de essências para sua especialidade. “As essências de cânfora ou menta, por exemplo, não tratam rinite alérgica ou sinusite, como explicam os aromaterapeutas. Esses aromas dão uma falsa sensação de alívio, porque acabam desobstruindo as vias nasais e causam um frescor no ambiente, mas não eliminam o problema. Nesse caso, a infecção tende a se agravar, se o paciente não procurar logo o especialista”, diz.

A tecnóloga Gabriela Claudino detalha as precauções que devem ser tomadas com a utilização de certos óleos, pois sua composição química é extremamente concentrada e pode ser tóxica. “Existem como contra-indicações alguns óleos em crianças, gestantes, hipertensos, hipotensos, em casos de epilepsia e os óleos cítricos são fotossensibilizantes à exposição solar [podem causar queimaduras ou manchas]. Por isso é importante cuidar ao fazer um tratamento por conta própria. O ideal é consultar uma esteticista formada na área ou um aromaterapeuta para realizar o melhor método de trabalho, a diluição correta e combinação de óleos para oferecer apenas os efeitos benéficos da aromaterapia ao seu corpo”, completa.

 

Marketing olfativo

As fragrâncias não estão só nos vidrinhos vendidos em lojas esotéricas. Atualmente, se faz o uso da ferramenta de atração do marketing olfativo em lojas, escritórios e empresas. Uma pesquisa comportamental feita na Alemanha concluiu que o uso de fragrâncias personalizadas aumenta o tempo de permanência da pessoa no ponto de venda em 15,9%, em média; a probabilidade de compra em 14,8%; e as vendas reais em 6%.

Também nem só de óleos a aromaterapia é sustentada. Produtos como sabonetes, cremes e xampus usam dos conceitos da aromaterapia na chamada explosão da fragrância – o cheiro sentido quando o produto é aberto ou desembalado, que fixa no subconsciente da pessoa uma boa sensação e relaciona com o produto. Incensos e vaporizadores também despertam os sentidos através de suas fragrâncias. Porém, todos estes últimos, não são considerados tão eficazes, por serem odores sintetizados.

O que a indústria de aromas parece ter descoberto é que as pesquisas, até então comuns à sua divisão de perfumaria, poderiam ser muito úteis na área da alimentação. A empresa norte-americana IFF Essências e Fragrâncias, por exemplo, cria desde a fragrância de um novo perfume masculino até o sabor de um salgadinho, de uma marca de café solúvel ou mesmo fragrâncias para produtos de limpeza. A técnica de criação para cada um deles é praticamente a mesma, o que varia é a sua forma de aplicação.

“O que buscamos é descobrir quais as nuances que mais agradam ao consumidor. Um morango não é só doce ou ácido. Ele pode ser verde, floral, geléia, polposo”, explica a coordenadora de avaliação sensorial da Givaudan, Giuliana Castro, em matéria para a Folha de S. Paulo. A empresa, de origem suíça, atende empresas como a Unilever. No caso dos alimentos, a percepção sensorial precisa ser mais direta do que a dos perfumes, segundo os especialistas da área. Mesmo com todas as variáveis, o consumidor tem de reconhecer qual é o sabor ou cheiro que o produto oferece. Se o morango no iogurte anunciado na embalagem não for percebido, o produto será rejeitado.

Em alguns casos, moléculas aromáticas que nada têm a ver com alimentos – mas que reproduzem um sabor marcado na memória olfativa – podem entrar na composição química para acentuar alguma característica, sendo mais ou menos perceptíveis pelo olfato. As moléculas presentes na fumaça, por exemplo, são usadas tanto para criar molhos com sabor de churrasco como para dar o gosto “defumado” a queijos e embutidos.

“Detectamos que as moléculas aromáticas do plástico são altamente prazerosas. As pessoas associam esse cheiro às lembranças agradáveis da infância, como o do material escolar novo e até o da piscina montada no jardim”, informa o aromista Maurício Poulsen, responsável pela criação de grande parte dos aromas da IFF, para matéria da Folha de São Paulo. Segundo Catarina Pohl, as preferências surgem, em parte, como uma forma de perpetuar emoções que determinado momento proporcionou. “Um jantar em que você foi promovido pode ser marcado pelo vinho tomado na refeição”, diz a pesquisadora.

Joel Minusculi
Que aprecia sentir bons aromas

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2 Respostas

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  1. Gustavo Uriartt said, on 26/02/2008 at 5:48 pm

    Excelente texto. Estamos começando uma pequena empresa de aromatização de ambientes em residências. Somos em dois Agrônomos Paisagistas e uma Arquiteta, a idéia é oferecer aos Clientes de jardins uma harmonização da casa juntamente com a confecção do jardim. Acreditamos que a idéia tem tudo para agradar. Coube a mim fazer um pequeno “folder” explicativo das vantagens da aromaterapia, e gostaria de pedir para você licença para usar algumas partes do seu texto. Cito a fonte como tudo que costumo fazer. Muito obrigado e aguardo seu contato.

  2. RISOMAR said, on 03/05/2008 at 1:00 am

    gostaria de receber cataogo ou qualquer outro material com mais informações e demomnstração dos produtos , pois tenho interesse em uso e revenda


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