Sonhos Ilimitados – Bob Dylan

Posted in Comportamento, Música, Vídeo by Colaborador on 07/03/2008

Bob Dylan toca sábado aqui na Barra da Tijuca.

Um longo caminho para Robert Allen Zimmerman, nascido em Duluth, Minnesota em 24 de maio de 1941.

Levado por forte influencia da música folclórica de Woody Guthrie, o garoto de Minnesota se mandou para New York em 1960 para conhecer Woody que já estava hospitalizado com mal de Huntington.

Bob visitou Woody regularmente no hospital para conversar, tocar e cantar para seu ídolo.

Mostrou a Woody Guthrie uma de suas primeiras “composições”, Song To Woody, na verdade uma adaptação de “1914 Massacre” que Woody também já havia adaptado de uma antiga melodia do folclore americano.

Bob, nesta época já conhecido como Bob Dylan, tocava em bares do Village por alguns trocados e comida, e dormia de favor no chão de apartamentos de amigos que se deixaram seduzir pelo menino que se vestia e cantava como Woody Guthrie.

Em 1962, através do lendário produtor John Hammond, Bob gravou seu primeiro disco, totalmente acústico, totalmente folk e vendeu nada.

Na CBS, Bob era conhecido como a “loucura de Hammond”.

Mas era intrigante o modo como Bob interpretava, seu phrasing único (colocação das sílabas na melodia), sua voz anasalada, estranha, muitas vezes agressiva, lembrava a poeira das estradas do interior, as ferrovias e os “hobos” escondidos em trens de carga.

Bob quase não grava seu segundo disco, John Hammond lutou por seu protegido e o mundo foi premiado.

O disco, The Freewheelin’ Bob Dylan fez história com a inclusão da canção que se tornou hino de toda uma geração, Blowin’ in the Wind.

Trazia ainda “Masters of War”, “A Hard Rain’s A Gonna Fall” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”

The Freewheelin’ Bob Dylan foi o primeiro clássico de Bob e na esteira, ajudou a formar o mito de sua persona.

Bob passaria a ser conhecido como “cantor de protesto”, mas pouco tempo depois, todos aprenderiam que não havia um “selo” para identificar a carreira de Bob.

Seu terceiro disco incluía mais canções de protesto como The Times They Are A-changin’ e “With Go don Our Side”, porém em seguida Bob lançou Another Side of Bob Dylan, um disco pessoal, lidando com seu rompimento com sua namorada da época, Susan Rotolo (Susan aparece na capa de Freewheelin’ Bob Dylan).

Os temas eram outros, canções como “All I Really Want To Do”, “To Ramona” e “My Back Pages” mostravam mais um lado de Bob.

Aí ele vai para a Inglaterra e faz amizade com os artistas da chamada “British Invasion” inclusive os Beatles.

Bob declara extasiado:

– Você precisa ver o que eles fizeram com “The House of the Rising Sun”, transformaram em rock!

Bob fazia referencia a antiga canção negra de mais de duzentos anos, gravada até mesmo por ele em seu primeiro disco e que na mão do grupo de Newcastle, The Animals, ganhara uma roupagem elétrica de guitarras e órgão e explodira para o primeiro lugar da parada inglesa.

Bob não perdeu tempo.

Em 1965, no tradicionalíssimo Festival de Newport, chocou a audiência de puristas do folk music ao se apresentar com guitarra em volumes nunca antes ouvido em Newport.

Foi vaiado, foi aplaudido.

Não importa.

Nascia Bob Dylan, o roqueiro.

Seu novo disco mostrava que Bob abrira as portas para todas as possibilidades.

Ironicamente intitulado “Bringin’ it All Back Home”, incluía “Maggie’s Farm”, “Subterranean Homesick Blues”, as imortais “Love Minus Zero/No Limit” e “Mr. Tambourine Man”.

De quebra, “It’s All Over Now, Baby Blue” e “It’s Alright, Ma (I’m only bleeding)”.

Sobre a última, Bob declarou em uma entrevista recente:

– Eu era jovem tinha vinte e poucos anos e escrevi:

Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
The handmade blade, the child’s balloon
Eclipses both the sun and moon
To understand you know too soon
There is no sense in trying.

E perguntou ao reporter:

– Você seria capaz de escrever isto hoje? Bem, eu não!

It’s Alright Ma, o encontro de Bob e o espírito de Rimbaud

Se alguém tinha duvidas, Bob eliminou todas elas quando ainda em 1965, lançou “Like a Rolling Stone”

O hino de desprezo ao traidor, a porrada na soberba, a cuspida em que esqueceu as regras.

– How does it feel, to be on your own, with no direction home, a complete unknown, like a rolling stone?

O disco Highway 61 Revisited incluia ainda as épicas “Ballad of a Thin Man”, “Just like Tom Thumb’s Blues” e os 11 minutos de “Desolation Row”

Versos como “T.S. Elliot & Ezra Pound fighting in the captain’s tower, while fishermen laugh at them and calypso men hold flowers”.

Perguntaram a Bob o que ele queria dizer.

– Não tenho a menor idéia!

Seu disco duplo de 1966 Blonde on Blonde, deixava claro seu gosto por substancias proibidas em Rainy Day Women #12 & # 35 e seu refrão “Everybody Must Get Stoned”.

E ainda “Just Like a Woman”, “Visions of Johanna”, “I Want You” e outras.

O resto é metade lenda, metade história.

Em apenas quatro anos, Bob mudou o mundo, do folk ao rock, passeando a vontade por tudo e todos.

Um acidente de moto, um ano e meio escondido em Woodstock, compondo e sendo gravado por muitos.

“I Shall be Released” é desta época.

Um retorno abraçando a simplicidade dos arranjos típicos de Nashville – mas não deixando por menos e escrevendo “All Along The Watchtower”

O lado soft de Nashville em “Lay Lady Lay”.

Toques na construção do caleidoscópio que é a obra de Dylan.

Ao mínimo movimento, muda todo o cenário.

E Bob não é chegado a movimentos mínimos.

Nos anos setenta, Bob nos deu New Morning com “If Not For You”, fez a trilha sonora de Pat Garrett com a clássica “Knockin’ On Heaven’s Door”, mostrou sua dor em Blood on the Tracks (o disco do divórcio).

Eu já disse e repito, quem não conhece Blood On The Tracks, não conhece Dylan.

Desire, o disco cigano (a luta pela liberdade do boxer Hurricane Carter), passou por Street Legal que incluia “Is Your Love In Vain” e “Señor”.

Em 1979, Bob abraçou o cristianismo, Slow Train Coming chegava às lojas e um par de anos depois Shot of Love com a clássica Every Grain Of Sand.

Bob nunca descansou.

1983, com participação de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare e com as guitarras de Mark Knopfler e Mick Taylor, Dylan lançou Infidels.

Nossa música de hoje vem de Infidels, o painel surreal chamado Jokerman.

Onde mais encontraríamos Bosch, Michelangelo, Goya, Hitler e os Kennedys, Martin Luther King todos na mesma pintura?

E um dos melhores versos de todos os tempos:

“Freedom just around the corner for you

But with truth so far off, what good will it do”.

“Liberdade ali na esquina, mas com a verdade tão distante, de que adianta?”

Não deixem de ver o vídeo – é uma obra prima.

“Jokerman” (Coringa) é exatamente isso, um rápido embaralhar de cartas, matizes misturadas, jogando luz na história dos tempos.

Bob fechou os anos oitenta com Oh Mercy e iniciou a década de noventa revendo seu trabalho com a coleção The Bootleg Years em 1991.

Com muita gala comemorou trinta anos de carreira em 1992 com um show de super convidados no Madison Square Garden.

Em seguida lançou dois discos só de musicas antigas do folclore americano.

Após uma doença, lançou em 1997, Time Out Of Mind, repleto de versos sombrios, lidando abertamente com o final da vida.

”No Dark Yet (But it’s getting there)”.

E mostrando que mantinha a forma, “To Make You Feel My Love”, gravada por muitos e número um nas paradas com Garth Brooks.

O novo milênio trouxe Bob e sua “Things Have Changed”, premiada com o Oscar de melhor canção para o filme The Wonder Boys estrelado por Michael Douglas e Katie Holmes

A música de Bob Dylan é constantemente regravada, às vezes discos inteiros com suas obras – um dos mais recentes é Dylanesque de Bryan Ferry.

Alguém disse que Bob Dylan muda de mundos de um verso a outro.

Melhor síntese, impossível.

Hoje, conhecer Bob Dylan não é tarefa fácil.

São 46 anos de carreira

Dylan já é matéria em algumas faculdades americanas.

Já existem os “dylanogists”.

Eu sou um deles.

Perto de completar 67 anos de idade, Bob é uma lenda viva.

Não vou ao show sábado.

Já vi Dylan diversas vezes e fui apresentado a ele.

É o suficiente.

Divirtam-se:

Jokerman – DOWNLOAD
(Bob Dylan)

Standing on the water, casting your bread
While the eyes of the idol with the iron head are glowing
Distant ships sailing into the mist
You were born with a snake in both of your fists while a hurricane was blowing
Freedom just around the corner for you
But with truth so far off, what good will it do.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

So swiftly the sun sets in the sky
You rise up and say goodbye to no one
Fools rush in where angels fear to tread
Both of their futures, so full of dread, you don’t show one
Shedding off one more layer of skin
Keeping one step ahead of the persecutor within.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

You’re a man of the mountain; you can walk on the clouds
Manipulator of crowds, you’re a dream twister
You’re going to Sodom and Gomorrah
But what do you care ? Ain’t nobody there would want marry your sister
Friend to the martyr, a friend to the woman of shame
You look into the fiery furnace; see the rich man without any name.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

Well, the Book of Leviticus and Deuteronomy
The law of the jungle and the sea are your only teachers
In the smoke of the twilight on a milk-white steed
Michelangelo indeed could’ve carved out your features
Resting in the fields, far from the turbulent space
Half asleep near the stars with a small dog licking your face.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

Well, the rifleman’s stalking the sick and the lame
Preacherman seeks the same, who’ll get there first is uncertain
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks
Molotow cocktails and rocks behind every curtain
False-hearted judges dying in the webs that they spin
Only a matter of time ‘til the night comes stepping in.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

It’s a shadowy world, skies are slippery gray
A woman just gave birth to a prince today and dressed him in scarlet
He’ll put the priest in his pocket, put the blade to the heat
Take the motherless children off the street
And place them at the feet of a harlot
Oh, Jokerman, you know what he wants
Oh, Jokerman, you don’t show any response.

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman.

Mick Wilbury – Miguel Aranega
direto do Rio de Janeiro, “Like a Rolling Stone”

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3 Respostas

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  1. Sal said, on 07/03/2008 at 5:47 pm

    Bob é Foda!
    um dos artistas mais geniais do século XX. sua obra e seu talento são inquestionáveis. sua relevância na música pop de suma importância na cultura ocidental!
    sou fã. já o assisti uma vez mas não tive o seu privilégio, compadre miguel, de ser apresentado a ele!
    grande texto. parabéns.
    adoro jokerman!!!!

  2. About Bob Dylan « Blue Sky said, on 02/04/2008 at 1:41 pm

    […] pouquinho sobre o Bob Dylan, só pra dar um gostinho de […]

  3. Claudia Freire said, on 07/04/2008 at 4:56 pm

    Adorei o post!

    Já que estamos falando da arte de sonhar, dêem uma olhada neste video do youtube http://www.youtube.com/watch?v=hyaX3JgPLVk, ou acesse o site http://www.meus3desejos.com.br. Tenho certeza que vocês irão gostar.

    Abs.


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