Táxis, Ultraleves e Ultravelhos

Posted in Comportamento, Crônica by Colaborador on 31/03/2008

 

Caros amigos,

Quando se mora sozinho, a gente desenvolve relações pouco comuns.

O jornaleiro pergunta do diabetes e o cara da farmácia quer saber se a bomba de água já foi consertada.

O motorista do táxi que eu chamei não é diferente.

– Para onde hoje Dr. Miguel?

– Ipanema – respondi meio no piloto automático.

Contornando a praia, uma daquelas manhãs que levam a crer que o Rio de Janeiro já foi bonito.

Na verdade é, um pedaço premiado da natureza, tomado por uma cidade podre, abandonada à própria sorte – ou falta de.

– Mas e aí Dr. Miguel? E a separação? Ela continua dando trabalho?

Deus do céu, pensei, será que em minha solidão imposta, eu falei da minha separação com o motorista de táxi?

É possível – na solidão a gente fala com as paredes e ri de volta para o microondas quando abre a portinha.

E dá gargalhada para a geladeira vazia.

E como ele sabe que ela dá trabalho?

Será que ele também a conhece?

O Rio é pequeno e motoristas de táxi são populares…

Continuei olhando os “paraglides”, mais de dez deles ao sabor do vento.

– Tá tudo bem, os advogados cuidam disso.

E continuei olhando pro mar com a preguiça recusando-se a sair do táxi.

Pelo retrovisor, ele percebeu meu devaneio e emendou.

– Dr. Miguel, o senhor precisa fazer um vôo de ultraleve!

Acordei na hora.

– Hein?

– É Dr. Miguel, ultraleve. È uma sensação irada! Eu faço ultraleve há muitos anos!

– Hein?

– Se o senhor quiser, a gente combina, tenho o maior prazer de levar o “doutor” num ultraleve!

– Mas não é perigoso?

Fiz cara de sério, fingindo interesse, o que só piorou a conversa.

– Dr. Miguel, não tem problema nenhum. Eu tive aula com o mesmo instrutor do Herbert.

– O do “Paralamas”?

– É, mas eu nunca sofri nenhum acidente.

Com o que só me restava concordar, afinal, ele estava ali dirigindo o táxi.

Eu pensava; na minha idade, vou me meter a voar de ultraleve. Era o que faltava.

Outro dia, enquanto o sinal não abria, admirei uma menina de uns 19 ou 20 anos.

Cabelos castanhos, olhos verdes, a caminho de ser mulher, beleza que a gente vê poucas vezes na vida.

Devo ter olhado mais tempo do que devia – “timing” não é exatamente minha melhor qualidade.

Ela olhou de volta, meiga e sorrindo me disse com uma voz bem suave:

– O senhor precisa de ajuda para atravessar a rua?

– Não, não, só estou um pouco tonto. É o diabetes.

– Então o senhor precisa cuidar do açúcar.

E lá se foi meu último contato nesta vida com uma garota de 19 ou 20 anos.

Dava pra ser mais idiota? Tonto? É o diabetes?

A primeira coisa que me veio à cabeça foi dar um tiro na dita cuja cabeça.

Que papelão!

E não era a primeira vez.

Minha namorada mora perto da discoteque Help.

Saindo de sua casa tarde da noite fui à direção dos táxis na esquina da Miguel Lemos com a Atlântica.

Passou uma dessas senhoritas de utilidade publica e me disse:

– Pra tua idade é mais barato…

Entrei no táxi como se fosse meu próprio caixão.

Alguém por favor, coloque os pregos.

E não martele com força.

Tô com enxaqueca.

E agora, essa do ultraleve.

Será que é assim mesmo?

O mundo é contra os que ficam de cabelos grisalhos?

No passado, os jovens usavam paletós no final de semana para parecerem respeitáveis.

Hoje, os mais velhos saem de camisetas para não serem discriminados.

Deus do céu! Eu já saí de paletó nos finais de semana, então é isso mesmo.

Estou velho! Coroa! Titio Sukita! Vovô!

Popó! Albamerindo!

Personagens queridos da cabeçinha do Chico Anísio.

Onde deixei minhas polainas e minhas galochas?

Será que posso ir caminhando pro meu velório?

Quem vai se importar? Ou notar?

Será que vão me deixar entrar?

E as moças? Ainda são moças?

Uma das minhas mulheres era virgem quando a conheci.

Anos mais tarde, uma das outras, também – isto é, se tímpano servir para tal conceito!

E música? E dançar? Não importa a música, meu ritmo é um só: Parkinson.

– Dr. Miguel, o senhor está me ouvindo?

Onde eu estava mesmo? Já esqueci…

Tentei mudar o assunto.

Quem sabe futebol?

Qual o motorista de táxi que não gosta de futebol, religião ou mulher casada?

Bolando uma saída fácil – tá na cara, ou é Vasco ou é Flamengo – mandei firme:

– Que time você torce?

– Bangu!

– Eu também, eu também. Vamos falar do nosso querido Bangu.

– Dr. Miguel, falar o que?

– Como assim o que, Bangu, fundado em 1904, vice-campeão carioca em 1916, 1951, 1957, 1959, 1965 e 2005.

Um festival de vices nunca visto na história do futebol carioca!

Bangu do artilheiro Ladislau da Guia com 217 gols.

E campeão carioca de 1966!

A esta altura eu já assoviava o hino do Bangu para escapar do papo do ultraleve.

E chegamos a Ipanema.

Paguei, deixei o troco e fui saindo…

Mas ele não perdoou:

– Dr. Miguel o senhor é impressionante, nunca vi ninguém conhecer tanto do Bangu.

  Com certeza, o senhor merece voar comigo de ultraleve!

– Ok, Ok. Que tal sábado às nove?

Mick Wilbury – Miguel Aranega
Que dedica o texto ao seu tio Agostinho Aranega, que aos 77 anos aprendeu a dominar o computador. É a pessoa mais vitoriosa que eu conheço!

 

!!! Confira amanhã a segunda parte do texto !!!

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4 Respostas

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  1. Marcelo said, on 02/04/2008 at 12:23 pm

    gosta de lanterna verde?

  2. Joel Minusculi said, on 02/04/2008 at 6:51 pm

    Já editei e diagramei aqui alguns dos textos do Miguel. Esse, sem dúvida, foi um dos melhores até hoje. É incrível a capacidade de transformar fatos em histórias e, ainda por cima, conseguir musicar. Agradeço pela colaboração =D

  3. […] « Táxis, Ultraleves e Ultravelhos Samambaia Sound Club – Entrevista Coletiva […]

  4. Marina said, on 03/04/2008 at 5:54 pm

    E vôou mesmo?
    Miguel, sou sua fã. E eu tenho 21!
    hahaha

    Por favor, continue escrevendo. Acho que me acharam meio louca rindo de cada trecho escrito, mas não me importo.
    hahahaha


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