Quando nasce o sol

Posted in Literatura by Joel Minusculi on 11/04/2008

Naquela manhã, o sol levantou mais cedo: o galo estava com insônia. Não que houvesse algum motivo astronômico que alterasse a órbita do sistema planetário. Muito menos que a ave tenor estivesse com olheiras profundas e um cantar debilitado. Mas essa era a impressão de Marcos, quando o cocoricar de Astolfo, o galo, começou a retumbar dentro da sua cabeça.

Marcos Aurélio Peixoto, como frisava cada palavra ao se apresentar, sempre foi um cara calmo e aplicado em tudo o que fazia, até mesmo no cuidado pessoal. Seus cabelos castanhos sempre apresentavam um corte militar preciso. Roupa sempre impecável e calçados brilhando, já que sempre dizia que a imagem é um cartão de visitas. A única coisa que poderia ser considerada desleixada era uma barba mal-feita – mas era de propósito, para parecer um pouco mais velho que seus 22 anos.

Apesar de jovem, trilhava uma carreira de sucesso. Mal acabara de se formar em direito e já estava trabalhando como estagiário em um grande escritório da cidade – não advogava, pois ainda precisava ser aprovado em um exame da Ordem dos Advogados para poder assinar processos. Seu cargo era pequeno, mas encarava como grandes suas responsabilidades.

Marcos também aplicava essa disciplina na sua vida pessoal. Sua rotina era tão pontual como os famosos trens britânicos. Acordava 9 da manhã. Tomava café, escovava os dentes, vestia-se e chegava no escritório até as 10 – o trânsito atrapalhava um pouco, mas tinha dias que conseguia chegar um pouco mais cedo. Almoçava às 13 horas, sempre com uma maça de sobremesa. A parada para o cafezinho era às 15 horas 25 minutos, com 5 minutos para jogar conversa fora com o pessoal na máquina de café. Às 20 horas ia para casa, passando por uma padaria bem perto dela todo os dias (era interessado em uma atendente, mas não confessava para ninguém).

Durante a noite, em casa, gostava de baixar seriados na internet e assisti-los, principalmente os de ficção científica. Antes de estar na cama às 1 da manhã, uma boa ducha, um lanche leve, uma leitura em algum código de leis e, enfim, o sono. Mesmo com uma rotina bem definida, coisa que muitos consideram uma prática excelente para se ter uma vida tranqüila, Marcos não conseguia cumprir plenamente suas 8 horas diárias de sono.

Marcos decidiu que, dessa vez, iria mudar o necessário para as coisas voltarem a ser igual como antes. Ele até gostava de animais, tanto que chegou a ter um periquito uma vez. Mas aquele galo, o Astolfo, havia se tornado a personificação (com penas) do inferno para ele. Ainda mais quanto a ave insistia em cantar para o sol todas as manhãs, com o conseqüente cocoricar reverberando pelos corredores do prédio.

“Quem diabos traz um galo para morar junto em um apartamento?”, amaldiçoava Marcos, enquanto lutava com as sobrancelhas pesadas para conferir a hora no relógio do visor do aparelho de som do quarto – e descobrir que ainda tinha para dormir quatro horas. Essa alvorada musical era um incômodo, mas Marcos nunca conseguia encaixar em sua rotina um tempo para resolver o problema. Mergulhava nas cobertas, como se fossem trincheiras, e encobria a cabeça com o travesseiro, como um capacete, para se proteger da rajada sonora.

Astolfo, o galo, era uma ave de porte. Penas reluzentes e coradas como rubis. As extremidades da calda e das asas eram pretas, como se fossem bainhas em seu manto vermelho. Era um galo normal, apesar da genética ter lhe proporcionado uma crista branca e o destino uma moradia em um apartamento. Astolfo era uma herança deixada para a filha de um simpático casal que teve uma morte trágica (ninguém gosta muito de comentar, porque foi um choque para todos da família).

Marcos sabia perfeitamente em qual apartamento estava o galo. Astolfo, em sua plena consciência galinácea, saudava o sol todas as manhãs e não tinha a mínima idéia de até onde chegava seu cantar. O homem estava uma fera. O animal estava cocoricando. Tão logo começou o bis de Astolfo, Marcos pulou da cama. Só de cueca, como gostava de dormir, se deu conta que seu corpo franzino não intimidaria ninguém para resolver a situação, por isso resolveu vestir algo antes de sair.

O galo cantava pela terceira vez, enquanto Marcos marchava pelo corredor de punhos fechados. Era o quarto ato de Astolfo, quando Marcos parou em frente à porta do 808 no mesmo andar. Bater com tanta intensidade, como se quisesse derrubar tudo de uma vez. Já era o quinto cocoricar e Marcos estava intrigado como o animal não ficava rouco, não perdia a voz ou arrebentava as pregas de uma vez. Até que chegou o silêncio.

As chaves começaram a se agitar do outro lado da porta. Marcos estava apreensivo, já que não sabia o que dizer. A porta abriu mansa, sentimento muito contrário ao que levava o desperto até lá. Pela abertura, os primeiros raios de sol fascinaram Marcos, até que uma sombra graciosa protegeu seus olhos.

– Bom dia, Marcos! O que você faz aqui?

Era Aurélia, a atendente da padaria. Ela vestia uma camisola branca até os joelhos, estampada com gatos em traços infantis pretos. Seus cabelos loiros estavam armados, assim como seu sorriso meigo. Os pequenos olhos verdes faziam um esforço para ficarem abertos, enquanto ocasionais bocejos insistiam em fechá-los. Ela estava admirada, mas não tanto quando a figura à sua frente.

– Bem, é que… tipo, o seu galo…

– O Astolfo? – respondeu prontamente.

– Astol… Espera aí, ele tem nome?

Depois de explicar de onde vinha o galo, Aurélia pediu desculpas pelo incômodo e convidou Marcos para o café da manhã, como forma de retratação. Marcos, sem saber se estava nocauteado pelo sono ou pela figura na sua frente, aceitou. Durante a refeição, descobriu que ela era meio desleixada, mas tinha um encanto intrigante. Conversaram muito sobre tudo, menos do Astolfo, que estava na lavanderia, intrigado com seu reflexo na máquina de lavar.

Marcos não gostava de clichês, nem de frases prontas. Mas daquela manhã em diante, se deu conta que existem sim males que vêm para o bem. E daí em diante, cada vez que o galo cantava, ele acordava em sua cama, lembrava da imagem de Aurélia na porta, abria um sorriso, fechava os olhos e voltava à dormir, como se o cocoricar agora se tornasse um ninar. Isso, até o dia em que passou a acordar todos os dias assim ao lado da dona do Astolfo.

Joel Minusculi
Que gosta de galos, na panela

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Uma resposta

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  1. Marina said, on 16/04/2008 at 6:21 pm

    hahahaha
    Uma vez eu peguei um pintinho lá na Festa do Colono e levei pro apartamento. Deixei ele na lavanderia e quando sai ele começou a piar (é isso que os pintinhos fazem né?) enlouquecidamente. Vai ver ele me achou com cara de galinha
    Tive que dá-lo pra minha amiga, que estava com os irmãozinhos dele e que mais tarde viraram galinhas assadas.
    hahaha

    muito boa Joel!


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