Leilão de Urubu

Posted in Literatura, Relato by Colaborador on 04/08/2008

Nascido e criado num morro carioca – favela de vielas apertadas, barracos escuros e vida sem nenhum horizonte – de repente me vi jogado numa planície sem fim, com trechos de mata fechada e água por (quase) todos os lados.

Fatalista por índole, tirou-me o destino da selva de pedra para atirar-me no que restou de outra selva, a majestosa floresta amazônica. Com 30 anos bem vividos, troquei a contragôsto as areias (e o voleibol) da praia de Copacabana por um barracão na mata, sem energia elétrica, chuveiro, TV nem geladeira e tendo que dormir (“com as galinhas”) às 19 ou 20 horas.

Eu mais meu irmão gêmeo Renato tivemos que aprender a fazer “cauvão” no sítio que a família comprou. Plantávamos boa parte do que comíamos e findamos trocando frutas por açúcar, sal, querosene e coisas do gênero.

A “brincadeira” durou quase três anos, até que largamos tudo e debandamos… primeiro, para a cidadezinha mais próxima; depois, rumo a Capital, Belém do Pará.

Ficou-nos daqueles breves tempos histórias e estórias que beiram o absurdo, mais parecem anedotas, além de momentos por vezes dramáticos mas sempre fascinantes do choque entre Homem e Natureza.

Minha experiência anterior com futebol de praia motivou-me iniciar um time infantil nas redondezas, com garotos que andavam de 2 a 4 km para treinarem sábados à tarde, resultando disso vários torneios locais e, adiante, nos vilarejos próximos. Graças a contatos meus com a Prefeitura, pela primeira vez na vida do sítio surgiu um ônibus naquelas êrmas paragens.

O paraense é, definitivamente, um povo festeiro… por mais carente e isolado que o lugarejo seja terá, duas vezes ao ano, a sua festinha (ou festança). Os “apreparos” começam mês e meio antes, com os Ofícios manuscritos entregues aos times principais das vilas vizinhas que, na verdade, pagam entre si as visitas anteriores que os ora convidantes fizeram. (Explica-se: vitoriosos ou derrotados, ficam todos para a festa própriamente dita, “varando” noite adentro.)

Nesse ínterim, renovam a “sede” – o barracão da Festa – pintando tudo e trocando a palha do teto. Por fim, capina-se o local em volta e aprontam a Capelinha ou o altar para a única Missa do ano.

No dia da festa, geralmente em homenagem a Santa-padroeira da localidade, tudo vem de barco: gêlo, bebidas, carnes para churrasco, o “sonoro” – caso não haja estradas (os “ramais”) – e boa parte dos “atletas” convidados, a maioria “barqueiros’.

Foi numa destas ocasiões que acabei leiloeiro, “intimado” pela beata do lugar, dona Maria Guedes. Pregão de miudezas, perfumes e louças entre outros, arrematados em pouco tempo.

Passava da meia-noite e, no barracão lotado, de comer só havia farofa… tudo o mais desaparecera por entre os dentes da rapaziada indócil.

Eis que dona Maria me surge com um “urubuzinho”, frango preto e esquálido, pouco mais que um pinto. Recusei-me a levá-lo a leilão. Que ela desse um jeito de prepará-lo… afinal, meu belo nome de “leiloeiro” estava em jôgo.

Quarenta minutos depois, entre tomates e pimentões, lá estava a pobre ave canibalizada para prazer & gula de quem a arrematasse. Chamei “Cacá” num canto e segredei-lhe que fizesse uns lances.

– Mas eu ‘tô “duro”, seu “Nato”… bebi a “grana” toda !

Expliquei-lhe vagarosamente que isso era um estratagema para subir o preço final do “pombinho”. “Cacá”, na realidade Dorivaldo Bandeira, era de uma família de maranhenses que viviam da pesca em barcos e também servindo em empresas congêneres. Ele trabalhava conosco no sítio, nas tarefas mais pesadas. Ao lhe perguntar certa vez porque tratava seus irmãos por “compadres”…

Nato Azevedo
Que escreve de Ananindeua, Pará

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