O impasse

Posted in Literatura by Colaborador on 14/08/2008

Era um tempo muito antigo e, meninote ainda, de muito pouco me recirdo. As lembranças, qual plangente carro de boi, transpõem as barreiras do Tempo, transportando o Passado para diante de meu translúcido olhar.

Lá está nossa família reunida ao redor da modesta fogueira, rostos brilhantes sorvendo ansiosos cada palavra do vovô, portento negro que já fôra escravo e trazia à vida os muitos “causos” soterrados pelo caminhar das eras. O goelido ventos das “geraes” os mantém atentos e até os seres noturnos da mãe-natureza parecem calar para não atrapalhar o relato.

Belos tempos aqueles… a cavalhada e as Folias de Reis eram agradáveis obrigações e o cavalo o meio mais comum de transporte. Esse nosso século de guerras & outras tragédias mal começara e o lampião iluminava casas e ruas. Juiz de Fora era pouco mais que um vilarejo e o modesto caminho do ouro que outrora fez a fortuna (ou a desgraça) de tantos metamorfoseara-se na esplendorosa Avenida Rio Branco.

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Eis-me ao pé do lume, de rosto afogueado, a interpelar vovô como surgira o nome da Cidade, onde nasceu tal título. Êle esquivou-se do encargo e, ademais, já passara de muiro a hora de criança ir para a cama mas, diante da insistência geral, rendeu-se a meu pedido. E começou a narrar lá do seu jeito negro, apostrofando verbos, “comendo” sílabas, reinventando palavras.

– “É uma história muito longa… Juiz de Fora era só um pedaço de terra sem nome sob as vistas de Deus-Pai Todo Poderoso, pelos idos de 1800 e tal, um sitiozinho, um distrito ou comarca, sei lá, de Barbacena ou de outra cidade próxima. A igrejinha local era o centro de tudo, numa época (que não volta mais) onde o vigário era a um só tempo pai, juiz, advogado, professor e até coveiro, fazia leis, distribuía justiça e resolvia ou decidia quase tudo na vida dos paroquianos.

Mas, como um dia a casa cai, apesar da respeitosa insistência de suas beatas esposas, dois fazendeiros decidiram dar às costas aos palp…, digo, aos conselhos do sr. vigário, sexagenário europeu de sotaque carregado e cumprimentos em latim.

O motivo da contenda era o Brejo das Almas, um charco de pouca valia bem por detrás da Matriz e que se alongava entre as propriedades do abastado fazendeiro “Zé Rico” e do modesto sitiante João “Tutu”, apelido este herdado a partir das prendas culinárias da esposa.

Por razões diversas ambos queriam a área, espécie de terra de ninguém. O vigário sonhara intermediar a questão justo para pleitear dos dois uma nêsga de chão para a Igreja, um pátio interno, quem sabe. Agora, a vaca fôra literalmente pro brejo, pois os “condenados” exigiam, de per si, um… juiz de fora.

Estava armado o impasse… os litigantes bateram pé e não houve reza, novena ou promessa que os demovesse daquele propósito.

– “Juiz de fora”… bradava “Zé Rico”, com um sorriso esperto e a idéia fixa de subornar o dito-cujo.

– “Ôme, pr1arresorvê esse angú só mêrmo um joiz de fora, sô”!, retrucava João “Tutu”, imaginando que sua honrada pobreza traria o juiz para o seu lado.

Tanto a comunidade fofocou, tanto se comentou o assunto que a notícia do arranca-rabo espalhou-se e, eis que num belo dia, aporta ao vilarejo nada mais nada menos que… um juiz de paz.

Veio em luxuoso cabriolé de cavalo ajaezado, vestido com cerimônia, de fraque, vistosa cartola, polainas sobre lustroso calçado e portando um Roskoph de ouro puro, preso com estudada displiscência ao cinto (na época, correia) da calça de linho inglês. Como de praxe, visitou o Vigário, autoridade mor da região e, na rápida troca de olhares, o vivido sacerdote estremeceu. Já o precavido homem da lei abaixou convenientemente a aba da cartola até a ponta do nariz e despediu-se do pároco, sem mais delongas.

Visitou em separado cada um dos contendores, reuniu-se depois com ambos, regalou-se à farta, repousou na casa de um e de outro e, após alguns ótimos dias, pediu 48 horas para dar a decisão final. Precisava analisar cada lado, o problema era delicado. Mal acabou de falar, sumiu.

“Zé Rico” e João “Tutu” passaram várias noites em claro antes de ter novamente notícias do doutor Kaff Aggesti P. Lantra — assim se chamava o “janota” de mãos bem cuidadas e olhar ladino — só que êle traziauma escritura de posse de terras devolutas do Império (era 1835 !) em seu próprio nome e referente justamente ao Brejo das Almas.

Para acalmar os ânimos e evitar uma verdadeira batalha campal o pároco viu-se obrigado, muito a contragôsto, a acompanhar o espertalhão até a casa dos desolados fazendeiros, quando estes tomaram pé da inusitada situação. Por fim, o visitante, dono legítimo e inconteste da gleba, propoz vendê-la aos dois conforme suas posses, o qual foi aceito.

Desde então “Zé Rico” e João “Tutu” viraram motivo de chacota de velhos e jovens que, logo que os viam, gritavam à sorrelfa:

– “Juiz de fora…  juiz de fora” !

Sendo assim, quando tempos depois fundou-se a cidade, não ocorreu a ninguém outro nome. Eis como nasceu… JUIZ DE FORA !

– “Bem, minha gente, é tarde… com sua licença eu vou dormir, que amanhã é dia de branco”!  E vovô, apoiando-se em sua inseparável bengala, sumiu na penumbra do varandão mal iluminado.

Nato Azevedo
Que agradece penhoradamente a prestimosa colaboração do sr. ANTÔNIO CARLOS DUARTE, do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora/MG.

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Uma resposta

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  1. ronaldocgq said, on 18/08/2008 at 12:59 pm

    Cafageste Pilantra? Isso é gozação! Essa história é fake, não é?


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