A Última Ceia

Posted in Literatura by Colaborador on 20/08/2008

Nero acordou de mau humor… aliás, na verdade nem dormiu direito pois o vexame dado pelos seus leões na arena do Coliseum não lhe saíra da coroada cabeça. Havia algo de podre no reino da bicharada, as feras famintas e torturadas semanas a fio recusavam-se a devorar aqueles portentos negros, vestidos de gladiadores, que a bélica Roma trouxera como escravos junto com os reis dos animais.

A divina figura do Imperador sentia-se ultrajada pela desobediência daqueles monstros dourados de olhos faiscantes e morte estampada na face peluda. Abaixo do céu todos cumpriam suas ordens… era preciso dar um basta naquela rebelião leonina.

Mandou chamar ao palácio deserto seu braço-direito, Tigelino, espécie de “pau” para toda obra e secretário particular do iracundo Imperador, que soltava fogo pelas ventas quando o ressabiado “Titi” acorreu ao “atrium”. O “Filho de Marte” repousava entre almofadins numa poltrona de ouro maciço, saboreando belo cacho de uvas e sendo abanado por esplêndidas donzelas.

— “Meu querido, tu assististe a minha desgraça ontem, durante os jogos “Juvenais”. A plebe ignara riu da minha augusta pessoa e até os malditos cristãos falaram em milagre daquele seu deus que ninguém vê nem sabe como é. Ou você, meu anjo, dá um fim nessa história ou dou um fim em ti… numa grande tigela de prata e em pedacinhos, que é para os meus “gatinhos de ouro” não se engasgarem. Agora, suma da minha presença!”.

Tigelino saiu às pressas, incomodado com o tratamento com que Nero o distinguia na presença das moçoilas, gesto que desenterrava do Passado os momentos de estranha intimidade que o delicado imperador exigira dele em outros tempos. (Oh, têmpora, oh, mores… clamavam os sacerdotes!)

Foi procurar Calígula, na época chefe da guarda pretoriana e gerente do calabouço real, de onde se recrutava bandidos e escravos para servirem de diversão para o povo romano, cidadãos e plebe, e de pasto para os leões esfomeados. Encontrou-o atarefado e, com ar sério e compenetrado, disse-lhe:

— “Calígula, meu velho, trago-te ordem expressa de nosso magnífico Imperador, que não está nada satisfeito com o estranho jejum das feras africanas. Ou você resolve esse problema ou Nero ordena tua morte, o expurgo de todo a vossa descendência, além de queimar sua quinta, com os animais e a criadagem”.

Calígula estremeceu… a “Rainha Louca” — como o populacho vil apelidara o imperador — adorava uma “fogueirinha” e certamente cumpriria com prazer sua ameaça. Aquele doido era bem capaz de incendiar a cidade inteira, principalmente a barracaria de madeirame vagabundo da população mais pobre e que circundava os bairros nobres da Roma dos Césares.

Felizmente, Calígula tinha um trunfo: um avantajado mouro, lotado na centúria de etíopes e gregos, lhe devia favores e era de tez escura, dado muito útil a seus futuros propósitos.

Salafrárius atendeu ao som surdo da campainha de bronza de sua rústica porta. Um lacaio dos nobres entregou-lhe um rolinho de papiro com o sêlo imperial, que Calígula conseguira junto ao antigo “caso” de Sua Majestade, o Imperador. Leu no bilheteum convite para que fosse até a mansão de seu superior, a quem devia a vida, salva durante cruenta batalha contra os trácios, quando os romanos estavam em desvantagem. Despediu-se da família, deixou recomendações com a esposa lacrimosa e rumou, pensava, ao encontro da morte.

Reconheceu ao fim da conversa que, se não era a morte, a incumbência estava perto disso. Sob pena de perder a própria vida, de forma desonrosa, pendurado numa cruz e ainda desgraçar a família, Salafrárius deveria assumir-se como escravo africano e viver entre os demais cativos no calabouço do Coliseum. Ficaria lá até descobrir o segredo da negrada, o que fazia com que os leões os ignorassem na arena, mesmo com fome.

Lutava contra o tempo e contra a desconfiança dos outros presos, já que fingira-se de mudo, pois não falava nenhum dos dialetos comuns à negraria. Pior: pouco entendia do manejo das armas dos gladiadores porque sempre lutara apenas com espada e escudo, quando muito com uma lança. Mas a vida de toda a sua família estava em jôgo, mais que a própria e êle nem sonhava em desistir.

Ficou feliz ao reconhecer que as rezas, defumações e batuques que faziam toda noite (digo, a noite toda!) não os protegiam, nos treinos, de golpes mais rudes dos adversários. Pelo contrário, alguns só nçao se matavam ali mesmo porque os instrutores os impediam. Estava desfeito o boato geral de magia negra, de corpo fechado, de pacto com Gárgula, etc.

Quem sabe não seria o consumo exagerado de alho — deglutiam o condimento tal qual os senadores degustavam uvas — que, dando-lhes um hálito insuportável, dava-lhes também engenhosa proteção?

Salafrárius descartou desanimado suaderradeira hipótese: afinal, o bafo daqueles quadrúpedes dafamília dos felídeos não era nenhum “sabor kolynos” e, ademais, suas vítimas não tinham temponem de abrir a boca. Era preciso observar como um gato, ficar à espreita como um felino e de ouvidos atentos, pois os negros convertidos já balbuciavam algumas frases da Vulgata.

A tênue luz solar que infriltava-se por entre as imundas grades da janelinha do porão infecto iluminou um Salafrárius à beira do desespero total, indormido, sujo, sufocado pelo odor nauseabundo de fezes e urina dos demais condenados. Contudo, os raios de sol da quarta manhã bordaram singela e tocante cena: a mãe negra a banhar seu molecote numa modesta tina, molhando-o repetidas vezes com o líquido multicôr de uma prquena botija.

Aproximou-se comovido, lágrimas nos olhos, a relembrar a si mesmo em longínqua era e a seu lindo filhinho, a poucas quadras daquele inferno. Um cheiro forte, almiscarado, exalava da bacia de cedro, invadindo todo o ambiente. Por Júpiter!, a matrona lavava sua cria com uma espécie de “môlho” onde sobressaía a pimenta, todas as pimentas do globo terrestre, as salsas, alho, arruda, manjericão, de tudo um pouco.

Ao espantado Salafrárius, mais mudo do que nunca, a mãe preta explicou, tropeçando nas palavras do latim vulgar:

— “Misifio… acqua nostra porteges minínus contra mau-olhadus, as bestafera da nocte, serpêntis, hienas, us lôpus et tomém us leônibus. Yeh, acqua poderosa contra “numa”… saravá, oyá”!

Recuou cambaleante, prestes a ter um colapso cardíaco, o coração descompassado pela descoberta. Alí estava o segredo, estivera todo o tempo bem na sua frente, mas êle julgara aqueles “banhos” malucos mero capricho de umpovo bárbaro, cuja evolução levaria séculos.

Salafrárius gritou, esperneou, chacoalhou as grades até que a guarda pretoriana chamasse o centurião do dia. Tiraram-no da cela e, após faxina em regra, compareceu à presença de Calígula. Com dois dedos de prosa, este deu várias ordens, cumpridas à risca.

A negralhada mudou de vida: banhos diários na Therma pública, boa comida com pouco tempêro e muitos doces, exercícios físicos que os fizessem suar bastante e purificar aquele sangue envenenado por tanto alho e pimentas. Por fim, promoveu-se com total sucesso um teste definitivo, usando um negrilho que limpava as estrebarias do palácio imperial. O ensaio foi algo do tipo “brincadeira de gato e rato” que causou gargalhadas gerais, mas sobrou muito pouco do “camundongo” para contar a história.

Informado do êxito dos preparativos, Nero autorizou emanar-se diversos Editos conclamando toda Roma para mais um tempo de festas e orgias, agora em homenagem ao deus Baco, com “panem et circensis”… e muitos leões novos. Antes, reunido seu “staff”, “sugeriu” que cada homem tirasse uma barra de ouro de uma sacola de couro, todas elas numeradas.

— “Meus prestimosos e fiéis servidores… irão comigo ao Coliseum. Se acaso algo sair errado, já dei ordens à minha guarda pessoal para lançá-los aos leões, um a um, seguindo a numeração dos barrotes. Se os deuses bafejá-los com a sorte, façam bem proveito desse valioso presente !”

O domingo amanheceu deslumbrante, os cristãos desmancha-prazeres e sua lenga-lenga religiosa foram convenientemente afastados das cercanias do Coliseum. Os boatos tinham corrido de boca em boca e a ralé maltrapilha e desnutrida querianada menos que a cabeça da negrada que fôra tratada a pão-de-ló, vivendo no bem-bom nas últimas semanas.

O povaréu da mãe-África estava petrificado de pavor, gemendo encolhido pelos cantos da masmorra fria, para onde havia sido transladado na noite anterior. Quando soaram as trombetas, foram empurrados aos magotes para a arena ensolarada, à chicotadas, enquanto a galera ensandecida urrava de satisfação nas arquibancadas, gritando… “Numa, Numa” !.

— “Numa, numa”!, repetiam aparvalhados os escravos logo abaixo, correndo feito baratas tontas para lugar algum, porque toda a arena estava coalhada de feras assassinas, ansiosas por estraçalhar alguém.

Horror e prazer se misturavam num banquete de sangue e morte, dor e delírio, a catarse da plebe humilhada a vingar seu infortúnio na desgraça dos miseráveis africanos.

Nero babava de contentamento e vaidade, com meia Roma desejando longa vida ao imperador e dando “vivas” à “divindade”.

Os leões vilipendiados vingaram o longo período de abstinência de seu prato predileto, devido ao detestável costume da “africanada” de banhar-se com a horrível pimenta brava. Agora, as carnes sabiam à pudim de uva, raro manjar a tanto tempo não saboreado.

O monumental leão apelidado pelo populacho de “Numa” refestelou-se sobre os restos de um escravo, a palitar os imensos dentes com os ossos do cadáver “semimorto”, enquanto admirava lá no alto um gordinho rosado, com uma coroa de ouro sobre a volumosa testa, pensando “com seus botões” (?!) que o tal sujeitinho daria uma ótima sobremesa.

De repente, os olhares de ambos se cruzaram e Nero, percebendo a má intenção do gato tamanho-família, empalideceu. Num lance de gênio, ergueu os braços pedindo silêncio e clamou à populaça:

— “Povo que me ama e venera, os leões são seus! Mooorte aos leõõões!”

Um dilúvio de chinelos, cestos, espadas, lanças, pedras e até muletas sucedeu à permissão do imperador. Os leões saltavam como gatos em teto de zinco quente, mas em vão… foram mortos sem piedade, esmagados como baratas.

A julgar pelo sorriso estampado na funérea cara de quase todos, embora tenha sido sua última refeição, parece ter realmente valido a pena.

“AVE, CAESAR… MORITURI TE SALUTANT” !, teriam dito, se os animais falassem.

Cincinato Palmas Azevedo

Nota do autor: como estamos de volta a novos tempos da Santa Inquisição, informo a quem interessar possa que os têrmos “negraria/negrada/negralhada e negrilho” foram extraídos do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (MEC-1965).

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