Fio da Alma

Posted in Comportamento, Literatura by Colaborador on 08/09/2008

Desde o primeiro dia que Jonas Junior botou o misero dedo do pé pra fora da barriga da sua mãe, seu cabelo, que quase não existia, o incomodou. Foram passando os anos, e o bebê que antes abria o berreiro quando alguém encostava nos seus fios de cabelo , cresceu e se tornou um garoto díspar. Não era a aparência que o tornava diferente, de longe um garoto normal com sardas, olhos verdes e aquela constante falta de músculos.

Jonas tinha um problema que levaria para o resto de sua vida. Não se sabe o que ocasionou isso, se foi hereditário ou um problema genético. Mas uma coisa era certa: Não deixar ninguém tocar e nem se aproximar do seu cabelo. Se ele achasse que existia uma missão nesse mundo para cada um de nós, a missão de Jonas era essa. Era uma força mais forte que ele, que transformava alguns bons momentos em momentos de fúria.

Antigamente se achava que Junior era um doente e as crianças do bairro tinham medo de ficar ao seu lado ou até de conversarem com ele, fazendo com que ficasse por fora do colégio por dois anos até confirmarem a não-doença. Talvez tenha sido o período mais feliz da vida daquele garoto, vivia em casa solitário e não tinha amigos, mas o que perdia lá fora ganhava em sua casa. Dona Lúcia, era mãe, amiga e conselheira sobre os mais diversos assuntos do mundo. Sabe quando se questiona alguém sobre alguma coisa e a pessoa responde : Não sei, porque é assim. Lúcia nunca usou essas palavras.

Jonas gostava de ler contos infantis que tinham crianças e casas na árvore, comprar picolés de groselha e sugar o a essência até ele ficar somente gelo, ir ao cinema sozinho e de observar as garotas que iam ao salão de beleza que ficava embaixo da sacada do seu apartamento. No tempo que esteve aprisionado em casa, o garotinho se apoiava em cadeiras para observar as meninas. Dos quatro aos quinze anos manteve aquele mesmo processo, só que todas as garotas que já tinham passado por ali ficaram no desgosto, ele não gostava de maquiagem, de chapinha e de nada que escondesse a beleza natural das meninas. Só achava a depilação necessária.

Era hora de ir para o colégio, beirava as 06:00 da manhã e era o oitavo ano. A primeira coisa que vinha na cabeça do agora jovem J.J era ter de enfrentar. Enfrentar o vento que sopraria seu cabelo para trás como uma turbina de avião durante o trajeto até a escola, enfrentar o porteiro brincando com seu cabelo e as centenas de jovens garotos que o olhavam atravessado como se fosse um animal que se defendia ao encostarem em seu pêlo. Podia cortar o cabelo como fosse: rapado, comprido, estilo asa-delta e até vassourinha. Não adiantava, era sempre a mesma coisa, aquela fissura em não movimentar um fio e desprazer de sentir ódio em cada instante que seu cabelo saía do lugar.

Seu único amigo inseparável e talvez a única coisa que o compreendesse naquele mundo era o Tob. Sua toca vermelha estilo caçador com proteção para os ouvidos. Ganhou de seu pai quando o mesmo foi caçar e nunca voltou. Tinha assinado o nome Tob nela, e assim ficou. Dos quatro aos quinze usou aquela toca como se fosse um escudo que lhe protegesse. E no colégio aquilo ainda dificultava mais um contato, era estranho demais para andar com os mais estranhos.

Quando alguém tocava o mínimo fiapo de seu cabelo ruivo era como se adentrassem em sua privacidade e descobrisse cada pedaço do seu ser, uma sensação parecida com a de puxar as cuecas de um garoto no pátio do colégio. E deus sabe o quanto isto descontrolava Junior. Podiam estar atirando no Papa que ele nada faria, e se o Papa passasse a mão em sua cabeça ele seria o atirador.

Nunca teve problemas com notas porque a rotina da sua vida o fez assim. Mas mesmo em sala fazia tudo sozinho e aquelas intermináveis ajudas dos professores em tentar enturmá-lo o machucava ainda mais. Até que um dia daquele oitavo ano, no começo da segunda aula a porta de metal se arrastou chão afora e a coordenadora entrou com um salto agulha bicando o chão. Podia ser mais uma nova regra do colégio ou quem sabe algum aviso bobo. Não, um novo aluno havia chegado ao colégio e ficaria naquela sala.

A coordenadora Sílvia puxou aqueles braços e logo Jonas percebeu que eram finos e longos braços que se iluminavam com a luz que saia lá de fora. Era uma garota e J.J a conhecia. De todas as milhares de garotas que já haviam passado no salão abaixo da sua casa, aquela que estava ali na sua frente havia sido a única que um dia ele pensou em encontrar. Logo após entrar no salão ela havia batido a porta de vidro e saído em disparada daquele lugar. Era como se seu desejo estivesse se realizando, pensou em correr, mas não foi. Nunca esqueceu aquilo.

Então a coordenadora bicou o chão com o salto como se estivesse alertando os alunos e exclamou:

— Está é a mais nova colega de vocês. Seu nome é Sara e ela acabou de chegar da Europa. Ela passou por momentos difíceis lá e gostaria que vocês a tratassem bem.

Cintia, estúpida nerd que sentava lá na frente, levantou a mão e com aquela curiosidade infame perguntou:

— Momentos difíceis, por quê?

A garota que até agora não havia falado nada, puxou a toca azul de lã que usava e mostrou a toda classe sua cabeça rapada, dizendo em alto e bom som:

— Leucemia, acabei de me recuperar.

Ao contrário de todos que estavam pasmos com aquela declaração, Jonas Junior sorriu.


Renan Accioly
http://velharias.wordpress.com

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Uma resposta

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  1. Marina Fiamoncini said, on 08/09/2008 at 5:02 pm

    Aaaaah Renan, não imaginei que fosse seu (é que eu fico imaginando de quem é o texto). Muito legal!


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