A Revelação do Ano

Posted in Literatura by Colaborador on 13/04/2009

cincinato

O marceneiro José Abdias suava em bicas, mais atordoado pela fome e pelo palrar incessante do rapagão a seu lado, dileto e único filho da madame que contratara seus serviços. Já passava das 3 da tarde e o ralo “almoço” raspado da magra marmita de alumínio barato sumira em algum local entre as paredes do estômago e a sanfona intestinal. Aquele gôsto azedo de apetite mal satisfeito incomodava-lhe o fundo da garganta. Pediu mais água gelada à bela empregada curvilínea e de olhar sugestivo, porque o líquido aplacava por algum tempo a persistente e angustiante sensação de fome.

Enquanto alisava pela décima vez as portas do móvel recém-construído, obra magistral de um perito em sua arte, ouvia mortificado a lenga-lenga do nutrido “pitboy” sobre a importância e o extremo valor de cada tela que enfeitava as pomposas paredes da sala de jantar do sofisticado apartamento. Cheio de si, exibia ao humilde “Zé” o enigmático trabalho de um japonês com nome de zebu, cujo filho “zaponzito” devia ter derramado por acidente um bocado de tintas em cima do quadro. Daí, para não perder o pano, o pai de olhinhos puxados só fez dar pinceladas a torto e a direito. Agora, a estupenda, a magnífica obra de um tal de “prá ti nada” não tinha menor graça. Era um grupo de miseráveis esmolambados, braços e pernas defeituosos e uns “bacurizinhos” barrigudos e tristes. Só um rico doido para querer aquele “miserê” todo enfeitando (?!) a sua rica sala.

Felizmente, o ruído de molho de chaves girando na fechadura da porta social deu ao pesado coração do marceneirro o ansiado alivio. A dona da “grana” estava de volta… em poucos minutos se veria livre daquele cenário de filme e, com os pés na terra — estava no 18º andar de um “resort” de luxo em Ipanema — poderia saborear o prazer de respirar o ar dos mortais comuns e endividados. —  Seu “Zé”, meu anjo, você ainda está ai?! Pensei que já estivesse em casa! — Pois é, madame, mas o doutor Anphilófio esqueceu de deixar a parte final do pagamento. A senhora sabe, “né”, a gente “percisa”… as coisas estão pela hora da morte! — Ah. meu Santo Antônio… o “Phil” só vem lá pela meia-noite e eu gastei todo meu dinheiro num vestido para a “soirèe” dançante na mansão do novo ministro, hoje à tarde! Passe amanhã, na hora do almoço, que eu deixo um lembrete para meu marido. Aproveite  e leve este presentinho para seus filhos: dois cofrinhos da caderneta de poupança RECOMPEX. Tem até uma moedinha dentro, fui eu que botei. Êles vão adorar!

José Abdias mirou cabisbaixo as latinhas de papelão, se questionando se elas, na frigideira quente, se transformariam em salsichas. Pensou em pedir um cantinho do “mano zebu” ou, quem sabe, um braço torto do “prá ti nada”… pagariam um ano inteiro, pelo que valiam segundo o “filhinho de papai”, do aluguel de seu barraco no Morro da Penitência e ainda sobrava uns trocados para comer bem até o natal e o ano novo. Quando o elevador de serviço parou na garagem, o ex-carpinteiro tinha decidido dar novo rumo a sua humilhante e decepcionante existência. Rasgou com indignação e ódio os cofrinhos, catando no chão oleoso os “trocados” que a ricaça pusera neles… e partiu célere para a papelaria mais próxima.

Já noitinha, abriu a porta do barraco com rudeza e desabou na poltrona esburacada, as correias à mostra entre restos de espuma. Ritinha e “Neco” acorreram, esperançosos de saborear novamente biscoitos ou tabletes de chocolate branco. Até o Drácula arrastou-se de debaixo da cama do casal e veio, latindo esganiçado, exigir suas balas de côco, o ápice do prazer. “Zé” afastou sem cerimônia o vira-lata preto e ordenou, dirigindo-se ao casal de filhos, entre dez e doze anos: — Seu pai mudou de ramo… de hoje em diante vai vender desenhos, os seus desenhos. Se fizerem porcaria vão comer papel; por isso, é bom capricharem. Agora, mãos à obra! “Neco” ameaçou protestar, aquilo não era atitude de um pai de verdade mas, ao examinar o semblante do “coroa”, concluiu que o negócio era para valer. José Abdias lançou-lhes sobre as mãos nervosas cadernos de desenhos e modestas caixinhas de lapís de cera. Quedaram estupefatos diante do universo em branco no qual teriam  que traçar doravante os rumos do próprio futuro. Um misto de ansiedade e pavor impediu-lhes de passar dos rabiscos. Coube ao pai, tão ansioso quanto as crianças, sugerir-lhes um caminho, uma vereda salvadora: retratar seu dia-a-dia na favela, na escola comunitária, na praia, igreja, na feira, etc.

“Zé” preparou todo o “mis en scene” necessário para incorporar um artista da pintura, gênio ignorado e incompreendido, baseando-se nos “tipos” que os filhos universitários de tantas famílias esnobes faziam nas suas horas vagas, isto é, quase que o dia inteiro. Comprou num belchior barato um camisão multicôr de turista americano e uma boinazinha “che guevara” surrada e descolorida. Grande bolsa “lee” e alpercatas franciscanas completaram a indumentária “rive gauche” do artesão da madeira que, frente ao espelho, decidiu cultivar a partir daquele momento um bigodinho de cantor de tangos. Estava pronto para a estréia !

Na quinta-feira seguinte, seu dia de sorte segundo o horóscopo, embarcou num ônibus lotado para Copacabana, a Princesinha do Mar. Terra de pobre metido a rico, constataria logo nos primeiros instantes, assim que chegou à praça “dos paraíbas”, na área central do bairro. Meteu-se no mictório de um bar próximo e travestiu-se de pintor “carnavalesco” para gáudio da plebe ignara e de alguns “classe mérdia” que, pelo visto, nada entendiam de arte. — O que é isso, meu camarada… meu sobrinho de 12 anos faz um troço bem melhor. Quinze reais por esse “treco”?! Não vale nem cinco! Definitivamente, Copacaban estava fora de cogitação. Era muita humilhação para êle! Ademais, as molduras artísticamente trabalhadas por suas mãos calosas valiam alguma coisa. Os garranchos dos seus pimpolhos podiam até não ter realmente nenhuma qualidade, mas se o que êle vira nas casas dos “barões” era arte, os filhos estavam no rumo certo.

“Se pirulitou” para Ipanema, lugar de rico metido a besta, justamente o que êle precisava, A Praça do Paz trouxe-lhe a calma que necessitava para pôr o ego ferido no pedestal antigo. Não demorou cinco minutos e, como pombos famintos, os transeuntes e frequentadores usuais dela aproximaram-se dos simplórios quadros. Rico entendido em arte faz caras e bocas, arqueia sobrancelhas, cheira a tela e até revista as costas da obra. José Abdias recebeu os primeiros elogios, informou os preços (é tudo um preço só, madame, prá não “trapaiá” nas conta), rabiscou um número de “telefone” qualquer para recados (depois arrumava um de verdade!) e garantiu que na manhã seguinte voltaria à Praça. Vendeu “sua” primeira obra e conseguiu o passaporte para a fama nos conselhos de um dos muitos desocupados que ocupam horas a fio os bancos das praças de qualquer grande núcleo urbano. O preço nos quadros era barato demais; os de cores mais suaves deviam ser mais caros; as molduras não podiam ser muito trabalhadas, que isso é coisa de índio; os desenhos pobres, mais primitivos, quase só rabiscos, êle definiria como “naif” e precisava urgente de um nome, bem curtinho, para assinar as telas. Obra sem assinatura não vale nada, nem de pintor genial.

A fama de “Zé” Abdias estourou nos ares granfinos como milho de pipoca americana e, nos bares, sobre as areias da praia ou na verde grama do sofisticado Country Club “bonecas”,  “peruas” e deslumbradas só citavam  a palavra mágica… JOAB !   A madame que fizera pouco caso dele e cujo marido somente achou tempo  — dinheiro, êle tinha! — uma semana depois para pagar-lhe o móvel feito sob encomenda, era agora a primeira a dizer-se sua amiga, exigindo a qualquer preço uma grande tela que ficará entre o abstracionismo futurista de Manabu Mabe e o hiperrealismo surrealista de Portinari. Seria a glória! JOAB estava em todas as bocas, mais cotado do que dólar em véspera de maxidesvalorização do real, mais procurado do que bacalhau português na Semana Santa. Saiu das praças para uma galeria de arte, largou o lápis de cera e a folha de caderno vagabundo para lidar só com pincéis, tinta inglesa e tela pronta comprada em loja. As crianças não tinham do que reclamar: o “rango” melhorara, a geladeira vivia cheia, “Nico” ganhara o tão sonhado videogame e Ritinha podia dormir tranquila com sua enorme boneca “Mijona”, enquanto sonhava com os anjos e com novos temas e cenas.

O Morro desceu para a cidade… as imagens que ninguém queria ver ao vivo, transformadas em arte (?!) acabavam na casa (e na cara) dos ricos e abastados que, por estranha ironia do Destino, vivendo lá embaixo estavam no alto da escala social, ao contrário dos favelados. JOAB passou a dar palestras sobre “seu” estilo de pintar, sua visão de mundo, a filosofia frente à vida e o reflexo dela em sua obra para (imaginem só!) estudantes de artes visuais, que entendiam muito pouco da “ladainha” daquele gênio incompreendido. Foi citado no exterior, virou verbete nos dicionários de arte do Brasil inteiro e, por fim, fechou dezembro com o título de “Revelação do Ano”, com polpuda soma em artísticos reais.   O ex-marceneiro José Abdias abdicou das glórias da arte em favor de um trabalho comunitário com a pivetada da favela onde vive até hoje, Criou uma ONG milionária com “grana” dos mafiosos italianos, contratando por boa paga jovens alunos de artes plásticas das universidades vizinhas para preparar novos talentos, que irão substituir seus filhos. Ritinha e “Nico” estão na Europa a estudos, “aprimorando-se” em pintura e desenho, embora não suportem mais nem ver um pincel na sua frente. A mãe, coitada, só se preocupa em saber quando será a próxima refeição dos filhos.

JOAB “locou” um enorme espaço na favela apenas para sua moderníssima marcenaria, trancada a sete chaves. Lá são feitas as artísticas molduras dos belos (ou nem tanto) quadros pintados pelos ex-drogados e assaltantes mirins, hoje recuperados pela magnífica obra comunitária sustentada pela ONG. Exportadas para Roma e Madri, entre outras capitais européias, as telas fazem enorme sucesso… infelizmente, sem as molduras artesanais, incompreensívelmente jogadas no lixo, depois de cuidadosa desmontagem. Coisa de gente do Primeiro Mundo, com certeza!

“NATO” AZEVEDO

NOTA DO AUTOR: a idéia central do texto foi baseada no relato de vida do marceneiro Abdias José dos Santos, in “O BISCATEIRO”, editora Vozes, Rio/RJ, 1975

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