E agora, Jornalista?

Posted in Opinião by Joel Minusculi on 22/06/2009

Acho que demorei em escrever este texto. Talvez pela minha rotina apertada, ou quem sabe o efeito colateral na minha lógica de não ter assimilado a decisão do STF. Tento ser forte, mas o desânimo insiste em ressoar no inconsciente e retumbar em cada lembrança de quatro anos e meio de faculdade de Jornalismo. Tudo parecia ter caído junto com o diploma na noite de 17 de junho de 2008.

Sou formando em jornalismo e, mesmo assim, não me sinto totalmente preparado para encarar grandes responsabilidades no mercado de trabalho. Fiz estágios, projetos de pesquisa, virei noites em trabalhos elaborados para apresentar em aula e, até mesmo, fui ao “fronte” do dia-a-dia encarar pessoas para matérias.

Pensando bem, acho que é besteira ter essa insegurança. Se eu não tivesse feito faculdade, e ido direto para o mercado de trabalho, não precisaria me preocupar com os elaborados processos comunicacionais que envolvem publicar uma matéria. Aliás, nem precisaria pensar. Era só entrar na redação e seguir as ordens de alguém mais velho que estivesse lá dentro. Fazer a mesma coisa, não reinventar. A segurança do marasmo é confortante.

Para que saber o que é um lead? Ou quais são os componentes de um processo comunicacional? Ou entender meu público alvo? Certamente um jornalista da redação vai ter tempo de sobra, em sua rotina perpétua, para parar tudo o que estiver fazendo e me ensinar, de graça, isso tudo. Jornalista não tem muito o quê se preocupar mesmo, porque hoje em dia a maioria só “chupa” tudo das assessorias. Aliás, se eu não tivesse feito faculdade, teria economizado todo o dinheiro investido, que seria suficiente para comprar um carro popular.

Qualquer pessoa pode escrever (desde que esteja alfabetizada, pelo menos). Qualquer pessoa pode fazer perguntas para os outros. Qualquer pessoa pode ir atrás de informações. Mas me pergunto: qualquer um sabe organizar tudo isso da melhor forma? Apresentar o conteúdo no “ponto” certo para as pessoas lerem? Ter o cuidado de não explorar o sofrimento alheio? O pior é que nem os jornalistas mesmo estão preparados para isso, pois eles se conformam em ser consumidos pela repetição, que Gilmar Mendes alegou ser a única coisa necessária para ser jornalista.

A não obrigatoriedade do diploma de jornalista é um incentivo à estagnação, a não atualização, a falta de novas visões de desenvolvimento das práticas comunicacionais. Mas quem sou eu para pregar isso, já que aprendi só isso em quatro anos e meio, e os juízes do STF derrubaram isso tudo em alguns meses de discussão.

Joel Minusculi
Que, mesmo desacreditado pela mais alta instância do poder judiciário brasileiro, valoriza tudo o que aprendeu nos quatro anos e meio de faculdade de jornalismo. Além disso, ao final de tudo, vê nisso uma oportunidade de mostrar que o diploma vale sim, e vai lutar no mercado de trabalho para provar isso

.

Você precisa ler também:

> Por que ainda estudar jornalismo?

> Diploma obrigatório caiu, e agora?

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2 Respostas

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  1. Marina said, on 22/06/2009 at 9:07 am

    Palmas para o Joel. Ótima crítica. Claro, só podia vir de um jornalista DIPLOMADO como você. Sei porque você demorou tanto para escrever: parece que estamos discutindo com criancinhas de 5 anos um assunto importante para todo o Brasil. Por mais que você tente justificar, parece que esses ministros tem bloqueio, tamanha a bobajada (inventei!) que eles disseram.

    Eu comecei a escrever sobre isso milhares de vezes e em todas parei para pensar: “tá mas por que eu tô dizendo isso, é óbvio!”.

    É triste. Nós que escolhemos a dedo nossa profissão, nos dedicamos a encará-la da forma mais ética e invoadora possível e estamos lutando para ser jornalistas dignos de respeito, nos vemos menosprezados.

    A sensação é de que pegaram todos os esses anos (o aprendizado, a experiência, as memórias, as amizades, as histórias absurdas, o caderninho de fontes, nossas produções…) e colocaram tudo em um imenso lixão.

    Onde mais poderemos fazer trabalhos bem feitos, como os que são feitos dentro da universidade, já que o mercado só se preocupa com a venda do produto?

    Jornalismo não sobrevive com preguiça e para mim, essa é a principal justificativa. Preguiça de estudar jornalismo! Ou talvez as pessoas que são contra o diploma se sintam superiores ao resto da humanidade e achem injusto terem de estudar a profissão.

    Lamentável, Joel.

    Eu poderia dizer que desejo que esses senhores ministros não se arrependam da decisão, mas no momento o que tenho a dizer é:

    vão tomar no cu.

  2. Fábio Ricardo said, on 22/06/2009 at 11:32 am

    Eu digo que foi uma grande perda.
    Mas não me assusto.
    Tem gente boa sem diploma, tem gente ruim com diploma.
    Tem gente que se formou comigo que hoje vive vendendo pamonha.
    Tem gente que se formou comigo e resolveu fazer facul de odonto, pq dá mais dinheiro.

    Esses diplomas realmente valem o que o STF disse que valem: nada.

    Mas a gente segue vivendo. Segue estudando, fazendo pós-graduação. Pós tbm não dá diploma regulamentado. Mas a gente faz do mesmo jeito. Pq faculdade não serve pra dar diploma: serve pra ensinar.

    E o dia que eu possuir meu veículo, só vou contratar jornalistas diplomados. Não pelo fato de eles terem diplomas. Mas sim pelo fato de eu confiar muito mais em lguém que aprendeu a fazer o que eu quero que ele faça. E até o que eu não quero: ele que me surpreenda, seja o diferencial do meu veículo.

    Eu não vou colocar um pedreiro para escrever no meu veículo.


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