O Anel de Fedora

Posted in Literatura by Sal on 11/05/2009

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Fedora fora criada com todos os mimos que uma menina de sua estirpe comporta. Estudara nos melhores colégios. Educada e linda, era prendada de forno e fogão. Com seu talento nato para cozinha preparava deliciosos quitutes e doces de fazer inveja aos melhores confeiteiros da região. Além disso, produzia lindos bordados que produzia em larga escala.

No alto de seus 16 anos, essa linda donzela, filha de Alba e do Sr. Pedro Rocha, possuía quase tudo que uma menina em sua idade pode querer. Seu noivo, um jovem e bem sucedido empresário a mimava com flores, poemas e amor. Suas amigas, sempre dispostas a lhe agradar, no fundo desejavam ser Fedora.

Alheia aos estragos que fizera a filha única, Alba em toda sua altivez nata, era ainda mais bela e cheia de energia que Fedora, e, não percebia que incomodava a filha. Sim, apesar de todas as qualidades, caprichos e vontades, Fedora não se conformava em saber que sua mãe era ainda superior. Em tudo Alba era mais que ela. O lugar que sua mãe possuía em casa, principalmente em sua vida, irritava Fedora em seu íntimo mais obscuro.

Nunca, nem por um segundo a jovem deixou no ar o pérfido sentimento que nutria por sua mãe. Seu pai, homem altivo que se derretia aos encantos de sua esposa Alba, irritavam profundamente Fedora, que tinha como inimiga a ser combatida a pessoa que mais lhe encheu de amor. Sua própria mãe.

No dia do aniversário de 35 anos de Alba, Pedro Rocha presenteou sua adorada esposa com a jóia mais linda que um ourives poderia confeccionar. Um anel adornado por um delicadíssimo diamante passara a adornar as mãos de Alba e a envenenar o coração de Fedora.

– “Por quê não fui presenteada com essa jóia em meus 15 anos? Era eu quem devia possuir esse anel. Eu mereço mais do que ela”

Destilava Fedora o seu veneno em silêncio.

A partir dessa data, a situação entre mãe e filha ficou insustentável. O ciúme, a raiva e a inveja que Fedora nutria por sua mãe, antes sufocada, desde o aniversário passou a quase substancial. Alba sentia que o amor de sua filha definhava a olhos vistos. Na realidade um amor forjado, jamais sentido. Fedora nunca amara sua mãe. Esse sentimento só era ofertado a si mesma. Ela nunca amou ninguém. Bastava-se. Pronto.

Alba, achando fazer o certo, cada vez mais procurava a atenção da filha e o dinheiro que a família possuía jamais fora poupado para suprir os caprichos de Fedora. A Senhora Rocha acreditava que o dinheiro poderia comprar tudo, até mesmo o amor de sua filha. De nada adiantava e o pior ainda estava por vir.

Numa tarde de primavera, no retorno de um agradável passeio com seu marido em volta do lago principal da cidade, Alba retornava para casa consumida pela alegria dos raios de sol. Absorta em seu estado de graça, não notou quando um homem aproximou-se sorrateiramente e, de súbito, encostou o cano do revolver nas costas de Pedro. A intenção era furtar as jóias, colar e anel, que Alba orgulhosamente ostentava. Na tentativa de defender a esposa, Pedro reagiu naturalmente empurrando Alba para o lado. Fato que assustou o ladrão, que em seguida disparou o revólver, descarregando os seis tiros no casal. Quatro balas perfuraram o corpo de Pedro, que chegou a ser encontrado com vida pela equipe de socorristas, mas devido aos ferimentos, faleceu a caminho do hospital.

Alba, a doce e gentil Alba falecera na hora. Dois tiros no peito. Duas vidas perdidas a troco de nada. O homem que tentou assaltá-los fugira após os disparos. Não encontraram o assassino, apesar das buscas intensivas da polícia, por tratar-se de uma família de nobres da região.

Fedora recebera a notícia da tragédia com pesar. O sentimento que tinha por sua mãe tornara-se ínfimo diante da dor da perda. Seus pais se foram para sempre. Em casa apenas os bens materiais. Bens de uma riqueza que jamais supriria o amor de seus pais. Apesar de todo o dinheiro o amor incondicional que lhe alimentava o espírito, não estaria mais ao seu lado.

No dia do velório de Alba e Pedro, toda a alta sociedade veio prestar as últimas homenagens ao ilustre casal. De pé, ao lado das urnas com os corpos, recebendo pesares de amigos e parentes, estava Fedora. Não mais aquela menina mimada, mas uma mulher, envelhecida anos em algumas horas. Só, apenas sua dor como companhia, quando chega seu noivo, que após uma breve troca de palavras de conforto, permanece ao seu lado na cerimônia – “Bonito anel”, ele disse, pra disfarçar a tristeza. Fedora caiu em prantos cobrindo o rosto com as mãos ornadas pelo anel que fora de sua mãe.

por Ariston Sal Junior

que desenvolveu esse conto a partir da frase em negrito

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A Revelação do Ano

Posted in Literatura by Colaborador on 13/04/2009

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O marceneiro José Abdias suava em bicas, mais atordoado pela fome e pelo palrar incessante do rapagão a seu lado, dileto e único filho da madame que contratara seus serviços. Já passava das 3 da tarde e o ralo “almoço” raspado da magra marmita de alumínio barato sumira em algum local entre as paredes do estômago e a sanfona intestinal. Aquele gôsto azedo de apetite mal satisfeito incomodava-lhe o fundo da garganta. Pediu mais água gelada à bela empregada curvilínea e de olhar sugestivo, porque o líquido aplacava por algum tempo a persistente e angustiante sensação de fome.

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Fio da Alma

Posted in Comportamento, Literatura by Colaborador on 08/09/2008

Desde o primeiro dia que Jonas Junior botou o misero dedo do pé pra fora da barriga da sua mãe, seu cabelo, que quase não existia, o incomodou. Foram passando os anos, e o bebê que antes abria o berreiro quando alguém encostava nos seus fios de cabelo , cresceu e se tornou um garoto díspar. Não era a aparência que o tornava diferente, de longe um garoto normal com sardas, olhos verdes e aquela constante falta de músculos.

Jonas tinha um problema que levaria para o resto de sua vida. Não se sabe o que ocasionou isso, se foi hereditário ou um problema genético. Mas uma coisa era certa: Não deixar ninguém tocar e nem se aproximar do seu cabelo. Se ele achasse que existia uma missão nesse mundo para cada um de nós, a missão de Jonas era essa. Era uma força mais forte que ele, que transformava alguns bons momentos em momentos de fúria.

Antigamente se achava que Junior era um doente e as crianças do bairro tinham medo de ficar ao seu lado ou até de conversarem com ele, fazendo com que ficasse por fora do colégio por dois anos até confirmarem a não-doença. Talvez tenha sido o período mais feliz da vida daquele garoto, vivia em casa solitário e não tinha amigos, mas o que perdia lá fora ganhava em sua casa. Dona Lúcia, era mãe, amiga e conselheira sobre os mais diversos assuntos do mundo. Sabe quando se questiona alguém sobre alguma coisa e a pessoa responde : Não sei, porque é assim. Lúcia nunca usou essas palavras.

Jonas gostava de ler contos infantis que tinham crianças e casas na árvore, comprar picolés de groselha e sugar o a essência até ele ficar somente gelo, ir ao cinema sozinho e de observar as garotas que iam ao salão de beleza que ficava embaixo da sacada do seu apartamento. No tempo que esteve aprisionado em casa, o garotinho se apoiava em cadeiras para observar as meninas. Dos quatro aos quinze anos manteve aquele mesmo processo, só que todas as garotas que já tinham passado por ali ficaram no desgosto, ele não gostava de maquiagem, de chapinha e de nada que escondesse a beleza natural das meninas. Só achava a depilação necessária.

Era hora de ir para o colégio, beirava as 06:00 da manhã e era o oitavo ano. A primeira coisa que vinha na cabeça do agora jovem J.J era ter de enfrentar. Enfrentar o vento que sopraria seu cabelo para trás como uma turbina de avião durante o trajeto até a escola, enfrentar o porteiro brincando com seu cabelo e as centenas de jovens garotos que o olhavam atravessado como se fosse um animal que se defendia ao encostarem em seu pêlo. Podia cortar o cabelo como fosse: rapado, comprido, estilo asa-delta e até vassourinha. Não adiantava, era sempre a mesma coisa, aquela fissura em não movimentar um fio e desprazer de sentir ódio em cada instante que seu cabelo saía do lugar.

Seu único amigo inseparável e talvez a única coisa que o compreendesse naquele mundo era o Tob. Sua toca vermelha estilo caçador com proteção para os ouvidos. Ganhou de seu pai quando o mesmo foi caçar e nunca voltou. Tinha assinado o nome Tob nela, e assim ficou. Dos quatro aos quinze usou aquela toca como se fosse um escudo que lhe protegesse. E no colégio aquilo ainda dificultava mais um contato, era estranho demais para andar com os mais estranhos.

Quando alguém tocava o mínimo fiapo de seu cabelo ruivo era como se adentrassem em sua privacidade e descobrisse cada pedaço do seu ser, uma sensação parecida com a de puxar as cuecas de um garoto no pátio do colégio. E deus sabe o quanto isto descontrolava Junior. Podiam estar atirando no Papa que ele nada faria, e se o Papa passasse a mão em sua cabeça ele seria o atirador.

Nunca teve problemas com notas porque a rotina da sua vida o fez assim. Mas mesmo em sala fazia tudo sozinho e aquelas intermináveis ajudas dos professores em tentar enturmá-lo o machucava ainda mais. Até que um dia daquele oitavo ano, no começo da segunda aula a porta de metal se arrastou chão afora e a coordenadora entrou com um salto agulha bicando o chão. Podia ser mais uma nova regra do colégio ou quem sabe algum aviso bobo. Não, um novo aluno havia chegado ao colégio e ficaria naquela sala.

A coordenadora Sílvia puxou aqueles braços e logo Jonas percebeu que eram finos e longos braços que se iluminavam com a luz que saia lá de fora. Era uma garota e J.J a conhecia. De todas as milhares de garotas que já haviam passado no salão abaixo da sua casa, aquela que estava ali na sua frente havia sido a única que um dia ele pensou em encontrar. Logo após entrar no salão ela havia batido a porta de vidro e saído em disparada daquele lugar. Era como se seu desejo estivesse se realizando, pensou em correr, mas não foi. Nunca esqueceu aquilo.

Então a coordenadora bicou o chão com o salto como se estivesse alertando os alunos e exclamou:

— Está é a mais nova colega de vocês. Seu nome é Sara e ela acabou de chegar da Europa. Ela passou por momentos difíceis lá e gostaria que vocês a tratassem bem.

Cintia, estúpida nerd que sentava lá na frente, levantou a mão e com aquela curiosidade infame perguntou:

— Momentos difíceis, por quê?

A garota que até agora não havia falado nada, puxou a toca azul de lã que usava e mostrou a toda classe sua cabeça rapada, dizendo em alto e bom som:

— Leucemia, acabei de me recuperar.

Ao contrário de todos que estavam pasmos com aquela declaração, Jonas Junior sorriu.


Renan Accioly
http://velharias.wordpress.com

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Quando nasce o sol

Posted in Literatura by Joel Minusculi on 11/04/2008

Naquela manhã, o sol levantou mais cedo: o galo estava com insônia. Não que houvesse algum motivo astronômico que alterasse a órbita do sistema planetário. Muito menos que a ave tenor estivesse com olheiras profundas e um cantar debilitado. Mas essa era a impressão de Marcos, quando o cocoricar de Astolfo, o galo, começou a retumbar dentro da sua cabeça.

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Noite dos Pesadelos – Parte 1

Posted in Literatura by Joel Minusculi on 09/11/2007

Por Deus, como minha cabeça dói. Os cobertores da cama me sufocam e o travesseiro parece feito de pedra. Mais uma madrugada de insônia, como acontece nas últimas duas semanas. Espere um pouco, meu quarto não é tão bem iluminado assim pela noite. As paredes estão sujas e avermelhadas. Minha cabeça. Preciso de um analgésico e um copo de água.

Levantar é a pior parte quando parece que a gravidade não colabora com sua vontade. Tudo está girando. Nem parece ser o meu quarto. Aliás, esse não é o meu quarto, mas é tudo tão familiar ao mesmo tempo. A escrivaninha, a pilha de papéis sobre ela, as duas janelas nas paredes, o armário ao lado da cama. Preciso urgentemente do analgésico ou de um sanatório. A caixa de remédios no banheiro é a mais próxima no momento.

O corredor também está com as paredes no mesmo estado do quarto. Se bem que minha visão está turva e, no momento, meus olhos não são confiáveis. O banheiro é aqui na frente. Mas por que esta maldita porta não quer abrir? Sorte dela que só tenho forças para andar, se não a poria a baixo. Sede. Preciso de água. E também de um analgésico. Maldita porta!

Pelo que eu lembre, eu lavei minha louça do jantar. Quem é que foi que sujou as paredes desse jeito? E a sala? Está pior que a cozinha… Alguém deixou a televisão ligada. Mas eu moro sozinho. Os livros na estante estão bagunçados. Esses quadros… eu tenho quadros, mas não estes. Minha cabeça… parece que tem uma fanfarra fora do ritmo dentro dela. A sujeira nas paredes está se movendo? Essa maldita dor que corrói o meu cérebro.

E esse cheiro metálico e forte. É de sangue! Onde? A parede, ela está ficando escura. As sombras da penumbra estão indo para a mesma direção. Ah, minha cabeça! Uma massa está saindo da parede. Ela parece… parece com uma… pessoa!? Está tudo girando. Essa figura que está saindo da parede… tão pálida, tão suja, tão… assustadora! Não agüento mais. Minha consciência não me obedece mais. Está tudo escuro, mas pelo menos a dor de cabeça parou.

Joel Minusculi
Que odeia noites de insônia

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